Ficaremos sem carnaval ou teremos dois?

Há exatos 100 anos, adiávamos o carnaval. O motivo fora a morte, no dia 10 de fevereiro de 1912, do Barão do Rio Branco, diplomata e então Ministro das Relações Exteriores do Brasil, conhecido hoje por ser nosso fouding father, maior responsável por nossas atuais fronteiras e patrono de nossa diplomacia. José Maria da Silva Paranhos Júnior, o nosso barão, era tão admirado ainda em vida que, diante do luto geral – que incluiu o fechamento voluntário do comércio, dos bancos, dos escritórios privados, das repartições públicas, dos cinemas e teatros, além do cancelamento dos bailes – o presidente do Brasil, Marechal Hermes da Fonseca, decretou o adiamento do carnaval. Os festejos não mais começariam no dia 17 de fevereiro, mas transferidos para 6 de abril. A Gazeta de Notícias registrou “O País soluça”, mas não teve jeito: o povo pulou carnaval duas vezes. E, não satisfeitos, fizeram marchinha:

“Com a morte do Barão
Tivemos dois carnavá
Ai que bom, ai que gostoso
Se morresse o Marechá”

Este episódio foi objeto de pesquisa e culminou no maravilhoso e bem documentado livro do diplomata e pesquisador Luís Cláudio Villafañe G. Santos, O dia em que adiaram o carnaval – política externa e a construção do Brasil (Ed. Unesp). Mas, infelizmente, não posso render minhas homenagens ao barão. Algo me impede.

Como todos já notaram, algo ameaça o carnaval de 2012. E não falo da greve dos policiais militares, civis e bombeiros: falo de militares nas ruas. Não sei vocês, mas eu já estava acostumado com as regras de convívio dos policiais militares. O Exército, este não tem senso de humor algum. Falta de humor no carnaval é dose. E digo falta de senso de humor como o maior dos meus eufemismos, pois a verdade é que eu tenho medo, muito medo de militares nas ruas. Aqui, na Venezuela, no Egito, na Síria, em qualquer lugar, militar na rua não rima com democracia. É, senhores, marchinha funesta. Porém, no fundo, não sei se pode ficar pior do que tava, afinal, só quem é carioca sabe o clima do qual estou falando. É aquele clima esquisito. Você sabe. Não dá para confiar no braço mais visível do Estado. Desviar, evitar, temer. Não dá pra explicar. É subjetivo demais. É como explicar o carnaval (no nível em que o vivemos) a um estrangeiro.

O carnaval, diria mais uma vez Roberto DaMatta, é nosso maior enigma. José Eduardo Cardozo, o Ministro da Justiça que não entendeu nada, afirmou ontem: “Teremos um carnaval ordeiro.” Ora, senhor ministro, tudo o que o carnaval não é e não deve ser é ordeiro. É contra a sua natureza. Veja bem, senhor ministro, vou lhe explicar como a banda de Ipanema toca: o prefeito – repito – o prefeito entrega as chaves da cidade para o Rei Momo. Carnaval ordeiro… É para se rir.

Agora devo dizer o que talvez seja o motivo central de minha intervenção. Assim como afirmei na ocasião da ação dos estudantes da USP e da recente greve dos bombeiros, o problema não está no motivo da manifestação, mas na sua execução. É preciso percepção política para trazer a população e a opinião pública para a causa. O que os manifestantes não devem fazer: 1) falar demais em telefones possivelmente grampeados (escutas são facilmente manipuláveis por edição televisiva e radiofônica); 2) danificar o patrimônio público; 3) atrapalhar a vida diária da população; 4) levar as esposas e os filhos para os quartéis como forma de proteção política (configura ato de covardia); 5) usar camisas e panos para esconder o rosto (porque a causa é nobre e não há motivo para envergonhar-se); 6) fazer alianças políticas que, ao invés de fortalecer, irão enfraquecer o movimento, tal como acontece agora, com a ligação direta entre os grevistas e Garotinho; 7) escrever faixas de conteúdo contestável, como a que li hoje pela manhã: “Mais vale lutar por dignidade abertamente do que se submeter à corrupção em sigilo”. Achei bem esquisito. Mas há acertos: trazer partidos de esquerda desalinhados com o governo para perto, pois são os únicos capazes de dar apoio político e embasamento estratégico para a negociação; recomendar às tropas que mantenham 30% do efetivo para atuar em emergências e a manutenção das UPPs e os salva-vidas da orla.

O Rio virará um caos? Fora o caos normal de um carnaval carioca, não. Isto já estava no balanço político há um bom tempo, pois, evidentemente, o governo do estado já havia deixado o governo federal de sobreaviso caso a greve se materializasse. O Rio já passou por momentos piores. Por isso, mantenham a greve para que o atual momento não seja em vão. Agora que começaram, sigam impassíveis e honrados até o fim.

Sérgio Cabral sairá mais forte ou mais fraco desta crise? Depende de nós. Se cairmos na tentação midiática e ficarmos contra as manifestações, ou seja, contra os policiais e bombeiros, tiraremos o governador da equação e o fortaleceremos por omissão. Se, ao contrário, colocarmos Cabral na pauta do dia, levaremos o debate para um nível mais profundo, estrutural mesmo, e o forçaremos a falar. E Cabral quando abre a boca nervoso é aquela maravilha. E tem mais: enviar o líder do movimento grevista, o cabo bombeiro Benevenuto Daciolo, para Bangu, como se este fosse um prisioneiro comum, quando é um prisioneiro político, é inadmissível numa democracia.

Agora, quem sai favorecido dessa crise de segurança é o prefeito Eduardo Paes, que, do fundo de seu cinismo habitual, apenas dirá, em outras palavras, é claro: “Eu só queria fazer o carnaval, portanto não tenho nada a ver com isso.” E o Rei Momo (que, agora, não sei por que, é magro) responderá: “É, prefeito, tu me destes a chave de um prédio prestes a desabar.”

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O Facebook e a vida dos outros

Os vídeos a seguir falam por si só. Quem sabe eu me anime a escrever um longo texto, mas tô sem saco. Deixo apenas sugerida uma associação. E deixo-a livre para diversas interpretações.

Clique aqui para ver o vídeo do estudante de Viena que pretende processar o Facebook

Clique aqui para assistir ao trailer do filme “A Vida dos Outros”

Clique aqui para fazer o download de “A Vida dos Outros”

Boas conclusões a todos! 

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Palavras de João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia “Os Três Mal-Amados”, constante do livro “João Cabral de Melo Neto – Obras Completas”, Editora Nova Aguilar S.A. – Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

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Amy Winehouse, minha vaca profana

Darling,

Eu estava curando uma ressaca, sem saber discernir o que era realidade e o que era sonho, quando minha mãe me acordou e disse que você tinha sido encontrada morta. Na hora foi esquisito, foi como se quem tivesse morrido fosse eu mesmo. Às vezes a gente exagera, meu amor, eu sei, eu não estou chateado.

Posso me lembrar exatamente da primeira vez que ouvi você cantar. Ouvi “Rehab” e não gostei, pois tenho esse péssimo defeito de dizer que não gosto o que não entendo, como quem odeia para depois amar, como quem desmerece para ser arrebatado. Eu passei a te amar muito desde então, e te ouvia sempre. Você caminhava comigo, andava de ônibus comigo, tomava banho comigo e era lindo, eu quase cantava como você. 

Os caretas não sabem o que é o exagero. Eles odeiam o exagero. E quanto mais a gente ficava careta, mais a gente te odiava, e te entendia cada vez menos. Você escolheu uma década péssima para lançar “o álbum da década”. Uma década muito asséptica, muito desalmada para você, para a sua música, para as suas viagens. Você nasceu muito tarde e morreu muito cedo. Por isso foi tão ruim amar você, e te desejar, e a querer, da forma mais paternalista e imbecil, que você se salvasse. Mas você não saiu dessa bad, foi muito longe nessa trip, e a coisa acabou assim, sem mais nem menos, você me largando no meio da noite e deixando um cinzeiro cheio, uma garrafa vazia e um bilhete escrito: “às vezes a gente exagera, meu amor, e eu tô indo embora, não aguento mais exagerar.”

Fico agora pensando na canção do Caetano, “Vaca profana”, não só porque ele fala de tetas e eu achava lindo o seu decote novo, mas porque o poeta disse: “Dona das divinas tetas, derrama o leite bom na minha cara, e o leite mau na cara dos caretas.” E ele segue: “mas eu também sei ser careta; de perto, ninguém é normal.” É muito difícil ser uma coisa só. É muito difícil estar aí. Eu te achava linda, mesmo você querendo se tornar cada dia mais esquisita, mas era bom porque fora das drogas você tinha um humor ótimo, gostava do bom sexo, gostava das cantoras que eu gostava, enfim, cumprimos o trato do friends with benefits sem grandes percalços. Você me chamava de “garoto”, “baby” e era divertido. Você dizia que morreria aos 27 anos, como Morrison, Hendrix, Joplin, Jones e Cobain, e eu dizia: “Nada, darling, você vai ter que ir pegar aqueles prêmios honorários chatíssimos do Grammy, aquela gente chata engravatada.” Mas você se foi aos 27.

Você vai fazer falta. Hoje vi uma ninfomaníaca se autoproclamando “careta” e insinuando que você já vai tarde. Vi boêmios de primeira linha falando que artistas são burros, porque usam drogas. Mas eu sei, meu amor, eu sei o que é beber para se desligar, e é uma pena você ter partido para carreiras, pedras, ampolas e tudo mais. Mas eu te amo mesmo assim. Felizes somos, os imperfeitos.

Vou guardar o seu disco, o seu DVD, o meu ingresso de quando você veio nos ver no Rio, e o bilhete que você me deixou.  Eu vou ouvir você tocar muito nas rádios durante essa semana e será sempre muito difícil. E vou tomar um porre por você hoje, e ficar pensando como minha vida seria se tivéssemos continuado juntos. Eu vou sentir sua falta, mas vai passar. E fique tranquila, não vou te substituir pela Joss Stone, ao menos não essa semana. A gente se vê, meu amor, a gente vai se encontrar por aí. Eu te encontrarei e te amarei nas suas músicas, como sempre foi. Às vezes a gente exagera, meu amor, acontece.

Eu amo você assim, como você era.

Um beijo! Até!

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Palavras de Vilém Flusser sobre nacionalismo

“O nacionalismo é sexo ocidental sublimado. Tem portanto a estrutura desse sexo. Essa estrutura está baseada, como já disse, no projeto medieval da “dama”. O cavalheiro defende as cores da dama, e essas cores são sua bandeira e seu escudo. Os torneios dos cavalheiros são atos rituais que substituem o coito. Mas sempre existe a possibilidade de dormir com a dama. A dama sublimada é o povo. O cavalheiro sublimado é o patriota. Mas o patriota leva vantagem sobre o cavalheiro por não poder e não precisar dormir com “o povo”. A sua virilidade nunca era sujeita à prova. Isto não era a sua única vantagem. O cavalheiro pertence a uma organização feudal que exige disciplina. O patriota (que ou é o burguês abastado ou turba enfurecida) pode ser inteiramente indisciplinado. Com efeito, um dos atrativos do nacionalismo reside justamente na dissolução da disciplina. O nacionalismo liberta. O patriota se entrega ao povo amado, justamente para libertar-se da disciplina e da responsabilidade por seus atos. O nacionalismo é uma forma esplêndida de transformar o homem em “gente”. “A gente” não necessita de escrúpulos, nem sofre dúvidas existenciais quanto às normas do seu comportamento. “O povo” é doravante o valor supremo, e a existência individual está subordinada a essa “realidade” suprema. O projeto existencial do indivíduo é apenas um subaspecto do projeto “basáltico” ou “monolítico” (como dizia o Füher) do povo. Praticamente superei a morte, ao ter-me integrado no povo imortal amado. É portanto doce e decorativo (dulce et decorum est) morrer pelo povo. O patriota infelizmente não consegue essa morte desejada. É às vezes forçado a morrer por si mesmo. Creio que nessa morte o nacionalismo periclita. É portanto mais indicado fazer-se de conta que a morte não existe. Só assim consegue a gente ser realmente “a gente”. Um bom método para esquecer a morte é cantar canções patrióticas e fazer passeatas.

O povo ardentemente amado está sempre rodeado de inimigos internos e externos. O povo amado sofre. A razão deste sofrimento está no fato curioso de que os demais povos não reconhecem os direitos do nosso. Talvez porque esses outros povos também se componham de nacionalistas. Isto quanto aos nossos inimigos externos. E os nossos inimigos internos são aqueles que não amam o povo, mas persistem num individualismo cego, não querem ser como “a gente”. São traidores. Os nossos inimigos são odiosos, e o nosso ódio a eles está em proporção direta com o nosso amor ao povo.

Concordará o leitor que essa maneira de ver a chamada “realidade social” é cretina. Mas o idealismo romântico alemão conseguiu o feito memorável de transformá-la na doutrina histórica que nos é ensinada, a todos nós, nas escolas. É verdade que os nossos professores atenuam um pouco a profunda estupidez dessa doutrina, para torná-la mais aceitável. Mas essa estupidez transparece em quase todos os capítulos dos livros de história escolares. A história da humanidade fica assim reduzida a uma série monótona de brigas entre povos, intercalada por breves provas da superioridade do nosso próprio povo, ou por acontecimentos que provam como o nosso povo, na sua inocência, tem sido espoliado. O resultado disso é que somos obrigados a apreender os nomes de generais e reis, e as datas de batalhas, o que tem um efeito soporífico que prepara as nossas mentes para o nacionalismo.”

(FLUSSER, Vilém. A história do diabo. São Paulo: Annablume, 2010.; pág. 92-93)

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O coração do vascaíno

O torcedor vascaíno é, com certeza, o mais apaixonado. O vascaíno parece ter nas veias o sangue dos velhos lusitanos que desbravaram o mar. O vascaíno é exagerado, desastrado, megalomaníaco; mais que os flamenguistas, até, porque para o vascaíno qualquer derrota é ultrajante, é o fim, não adianta nem culpar o juiz. Para ele não há ontem nem amanhã, não há glórias passadas nem futuras, só importa a vitória deste campeonato. O coração do vascaíno, por sua beleza extremista e desesperada, por sua pulsação angustiada e veloz, é o coração de torcedor mais propício ao infarto. Digo isso porque sou tricolor e sou de uma linhagem de tricolores que vem de Nelson Rodrigues. É invejável a voracidade dos vascaínos, a sua dor e também o talento nato para o grito, para o barulho. Por isso é fácil irritar um vascaíno, mais do que qualquer outro torcedor. Conhecem a famosa cena do estádio do Racing no filme argentino O Segredo dos seus Olhos? Podemos trocá-lo por São Januário que dá no mesmo. Sejamos sinceros: sem os vascaínos o futebol brasileiro não teria tanta graça, porque a graça do esporte bretão é que ele lida com os sentimentos mais profundos, e nisso os vascaínos são craques; em ir ao limite, em ser os gigantes.

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A nova Lei Áurea: os gays e o dia seguinte

Há exatamente 123 anos, era assinada, pela princesa regente Isabel, em nome de seu pai, D. Pedro II, a Lei Áurea. Todos os mitos à parte, sabe-se que era uma questão, além de moral, econômica. Libertar os negros escravos era urgente numa sociedade escravagista em declínio galopante. Todos os brasileiros sabemos, ou deveríamos saber, que nada ou quase nada foi feito em seguida no sentido de uma política que salvaguardasse a população negra que então se tornava parte do jogo econômico e possuía os direitos de um cidadão como outro qualquer. Mas o modelo de liberalismo econômico rapidamente mostraria seus dentes, separando os empregados dos desempregados, os ricos dos pobres, os incluídos dos marginais. Esta é, senhores, uma das páginas mais capitais de nossa história, inscritas no livro dos problemas sociais e raciais que temos hoje.

Jair Bolsonaro: homens como ele enviaram 25.000 homossexuais para câmaras de gás

João do Rio, conhecido cronista do início do século XX, membro da Academia Brasileira de Letras, era gay. Todos sabiam. Imaginem: um intelectual, veado!, que consegue entrar para a ABL aos 29 anos. Um completo absurdo. Mas Machado de Assis, preto, o adorava, o admirava. Eu quero lembrar aqui o nome de seus detratores, seus desafetos, seus críticos vorazes, mas infelizmente não posso. Poderia rapidamente consultar a minha biblioteca, porém nem isso me apetece. Tais monstros não existem mais. Passaram.

Há muita gente que, hoje, repudia a dicotomia esquerda versus direita. Que acha que a ditadura civil-militar (sempre é bom ressaltar) perseguia “apenas” os comunistas. É preciso compreender que a cúpula da Igreja Católica, os empresários, a família tradicional e parte da imprensa apoiou aquela luta contra os inimigos da pátria, da moral, da família, de deus. Seria ingenuidade pensar que essas pessoas não existem mais, que elas vão apludir os iluminados e sensatos ministros do STF. Portanto, não seria inevitável e de suma importância separar o pensamento verdadeiramente liberal e progressista contra o conservador e reacionário? Como diz Slavoj Zizek, “nunca precisamos tanto de teoria como hoje”. De fato, está cada dia mais difícil reconhecer ideologias por trás dos mais diversos discursos. Nunca foi tão perigoso ouvir. “Quanto mais esquecido de si mesmo está quem escuta, tanto mais fundo se grava nele a coisa escutada”, já dizia Walter Benjamin.

Costumo discordar da maioria dos posicionamentos de Arnaldo Jabor, mas, da sua coluna de ontem, no Jornal da Globo, podemos retirar alguns pontos interessantes. Ele diz: “Mas até hoje muita gente não suporta a diferença. Porque o que os homens mais temem é a perda da identidade sexual, que os gays têm a coragem de assumir. O caso do Bolsonaro é exemplar. O Bolsonaro me fascina porque é o reacionário básico, um fascistinha puro, diferente de outros políticos que ocultam o direitismo patológico sob a capa da cordialidade e do cinismo. Bolsonaro, não! Ele é a essência do machão parado no tempo. Devia ser posto em formol para as futuras gerações o conhecerem no museu da nossa burrice histórica.”

Preocupa-me mesmo, não a questão jurídica, que mesmo em um país como o nosso, no qual a justiça funciona e des-funciona, ao menos não deixará a questão fora da legislação civil. Preocupa-me o dia seguinte. O que mudará sobre casais gays jantando em um restaurante, fazendo compras, tomando cerveja num bar? As piadas sobre a Farme de Amoedo, senhores, são engraçadas, admito, mas pensemos bem: que outro nome poderíamos dar àquilo senão ghetto? A sociedade irá tratar filhos de casais gays como trataram um dia os filhos libertos de escravos: como coitados, dignos de pena, ou pior: pessoas orfãs. O Brasil, a partir de agora, passará décadas e décadas fetichizando o gay, tratando-os, ou como mais especiais que outros, ou menos. Será cool ir a casamento gay, à festa de criança de pais gays; isto será moda e, muitas vezes, cínico. Indo mais longe: pais heterossexuais, hoje, mal conseguem explicar para seus pequenos filhos que todos são iguais, porém uns mais claros de pele, outros mais escuros; que somos, afinal, mestiços; que dirão então para explicar que há famílias com dois pais, famílias com duas mães? Continuaremos a formar monstros, a alimentar o ódio. Arrepia-me pensar em crianças de pais conservadores xingando os pais do amiguinho de “veados”, “pederastas”, e isto é apenas o começo, senhores. Muitos homossexuais ainda terão que pagar a conta mais cedo porque a “instituição família” quer proteger seus filhos daquela visão imoral e obscena de dois gays… jantando, namorando. A intolerância é uma besta mitológica irracional e imensa…

A dificuldade de produzirmos uma terminologia “correta” é típica e aproxima ambas as questões. É preto? Veado? Afrodescendente? Gay? Homoafetivo (essa eu acho de um eufemismo cavalar!)? Negro? Escurinho? Mãozinha-quebrando-para-baixo-no-pulso-seguida-de-uma-confirmação-de-entendimento-do-interlocutor? Homossexual? Travesti? Transexual? Transgênero? Sapatão? Negão? Pederasta??? Para mim, nenhum deles. Alguém só pode ser, ponto. Fulano é. Basta.

O caso dos transgêneros (antigos travestis), para mim, é o mais interessante. Podendo casar, eles passarão, de marginalizados da sociedade heterocrata para meras mulheres donas-de-casa, porque a chance de emprego continuará restritíssima. Não conheço o caso dos transsexuais, que mudaram de sexo perante a justiça, mas creio haver, aí, problema similar. Logo, logo estaremos discutindo cota de trabalho para transgênero. “Empregue um transgênero e desconte do imposto de renda”. Os dados mostram que, como eles iniciam a transformação do corpo ainda adolescentes, abandonam a escola em decorrência das chacotas e humilhações por parte dos colegas. A baixa escolaridade não os permite fazer parte da economia formal; para sobreviverem, prostituem-se. Ou você é daqueles que ainda pensa que a única coisa que homossexual gosta de fazer é sexo?

Enfim, é um tema muito complexo, do qual não tenho muito conhecimento. O que eu quis trazer para a discussão é: sem mudança de mentalidades, sem colocarmos a questão para debate nas escolas, se não lutarmos contra o conservadorismo anacrônico das igrejas, o reacionarismo das famílias, o militarismo ignorante, se não vencermos certos paradigmas históricos que atentam, de maneira absurda, contra os direitos humanos, em breve teremos a seguinte situação: homossexuais incluídos na legislação, mas excluídos e marginalizados nas entrelinhas do convívio social.

Ah! E antes que apareçam fascistinhas de todos os matizes: não vai ajudar me chamar de veado e todos os correlatos. É apenas mais uma tentativa previamente frustrada de fazer esse país andar. Para a frente.

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Crônica de Aniversário

Tenho 22 anos agora. E sinto saudades de muita coisa. Sei que muito há de vir por aí, mas o que passou já dá sinais de doer. Tenho saudades das pentelhações do Williham Westphall, que gostava de me dar os beijos na bochecha que eu odiava, do Ricardo Seffrin provando que conseguia prender o controle-remoto com os pés depois de alguém tacá-lo no ar. Gênio. Pé tamanho 44, sei lá, algo assim. Saudades da D. Rita Seffrin fazendo o melhor macarrão-ressaca para recarregarmos as energias depois de uma sexta-feira consumida por excessos, de comprar cigarros marca Sampouerna ou Black a menos de cinco reais. Saudade de jogar Perfil e perder por estar muito bêbado para lembrar das informações. De ir de bicicleta pelas ruas de Botafogo atrás de uma garrafa barata de 51 para fazer caipirinha azeda e tomá-la até vomitar; e entupir o encanamento do Williham. Saudades da Copa de 2006, dos carnavais em Santa Teresa, dos pé-sujos que a gente encontrava até no Leblon.

Uma vez perguntei ao Gustavo Seffrin se Estorvo, livro do Chico Buarque, era bom. Ele disse: “Sim, é muito bom.” Perguntei: “Já leu?”. E ele: “não!” “Então como você sabe se é bom?” Gustavo ficou calado… Dois minutos depois eu volto, e ele pergunta: “Chocolate belga é bom?”. E eu: “claro, é muito bom”. Ele: “já comeu?”. E eu: “não!”. E ele: “Viu? É a mesma coisa…” Era mais ou menos assim que conversávamos sobre mulheres. Por termos o mesmo gosto estético em relação a elas, nos apaixonamos pelas mesmas em momentos diferentes da vida. Mas essa é outra história…

Saudades de implorar ao Gustavo para que ele tomasse banho depois da praia, e dele dizendo para a Larissa Veiga que o peido dele não era azedo, mas agridoce, com a naturalidade dos que têm razão. Saudades do Leonardo Medeiros dizendo que as palavras que ele mais odeia são “mezanino” e outra da qual não me lembro, daí fazíamos de tudo para encaixar tais palavras em frases. Algo sem graça hoje, mas divertidíssimo ontem.

Creio que foi no carnaval de 2006 que quebramos a garrafa de vodca na minha mochila. Tínhamos que atravessar a Álvaro Ramos do prédio do Ricardo até à vila do Willy e chovia torrencialmente. Colocamos a garrafa na minha mochila para corrermos. Corremos. Quando chegamos à casa do Willy, totalmente encharcados, tive a lamentável ideia de pedir para que a Maria Eduarda Serpa guardasse a mochila com a vodca, ao que ela a tacou longe, quebrando a garrafa e rasgando todo o tecido. Quanto mais eu ficava puto por sua burrice, mais ela falava “foda-se” para me irritar. Dizia: “eu quero é que se foda, eu quero é que essa mochila se foda!” Todos riam. Vontade de esnagá-la e esconder o corpo. No dia seguinte minha mochila continuava fedendo a álcool. Somos amigos, eu e Duda, até hoje.

Saudade dos esporros monumentais que levávamos do Chico Seffrin, mais conhecido como Chico Chicote, ou Poderoso Chefão, como queiram, porque o Gustavo sempre sentiu prazer em escolher o caminho mais difícil;  a saber, sempre o errado. Íamos para a masmorra com ele. Era tenso, mas divertido. Perdemos metade de um carnaval assim. Não importa, perderíamos outros por um motivo ou por outro: naquele estávamos todos juntos, uns dez ou quinze. Tínhamos um dom que perdemos: ver oportunidade para a diversão onde não havia.

Saudade do reveillón de 2005/2006. Fui mijar à beira da água de Ipanema, perdi uma havaiana, entreguei a outra para Iemanjá e curti uma rave inteira descalço, virado, sem tomar um comprimido sequer, juro. Lá pelas três da manhã eu não era ninguém, mas continuei indelével até o dia seguinte. Lembro do Williham falando: “Você é um méarda de méarda, perdeu o chinelo! Hahahahaha!” – Todos riam, todos riam. A certa altura, foi ele quem perdeu o chinelo, na areia. Pertubei-o como se não houvesse amanhã.

Gustavo agora mora a poucas quadras de mim, aqui no Engenho de Dentro, mas certamente nos veremos pouco. No antigo apartamento no qual ele morava, na rua Venâncio Flores, palco de tantas festas, tantas histórias, seu pai guardava um livro que eu costumava ler sempre. Era o Vivir para contarla, a autobiografia de Gabriel García Márquez. Nunca me esquecerei da epígrafe do livro, do próprio autor, que dizia: La vida no es la que uno vivió, sino la que recuerda y cómo la recuerda para contarla. Ou, como na tradução: A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.

Feliz aniversário, Guilherme!

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