Crônica de Aniversário

Tenho 22 anos agora. E sinto saudades de muita coisa. Sei que muito há de vir por aí, mas o que passou já dá sinais de doer. Tenho saudades das pentelhações do Williham Westphall, que gostava de me dar os beijos na bochecha que eu odiava, do Ricardo Seffrin provando que conseguia prender o controle-remoto com os pés depois de alguém tacá-lo no ar. Gênio. Pé tamanho 44, sei lá, algo assim. Saudades da D. Rita Seffrin fazendo o melhor macarrão-ressaca para recarregarmos as energias depois de uma sexta-feira consumida por excessos, de comprar cigarros marca Sampouerna ou Black a menos de cinco reais. Saudade de jogar Perfil e perder por estar muito bêbado para lembrar das informações. De ir de bicicleta pelas ruas de Botafogo atrás de uma garrafa barata de 51 para fazer caipirinha azeda e tomá-la até vomitar; e entupir o encanamento do Williham. Saudades da Copa de 2006, dos carnavais em Santa Teresa, dos pé-sujos que a gente encontrava até no Leblon.

Uma vez perguntei ao Gustavo Seffrin se Estorvo, livro do Chico Buarque, era bom. Ele disse: “Sim, é muito bom.” Perguntei: “Já leu?”. E ele: “não!” “Então como você sabe se é bom?” Gustavo ficou calado… Dois minutos depois eu volto, e ele pergunta: “Chocolate belga é bom?”. E eu: “claro, é muito bom”. Ele: “já comeu?”. E eu: “não!”. E ele: “Viu? É a mesma coisa…” Era mais ou menos assim que conversávamos sobre mulheres. Por termos o mesmo gosto estético em relação a elas, nos apaixonamos pelas mesmas em momentos diferentes da vida. Mas essa é outra história…

Saudades de implorar ao Gustavo para que ele tomasse banho depois da praia, e dele dizendo para a Larissa Veiga que o peido dele não era azedo, mas agridoce, com a naturalidade dos que têm razão. Saudades do Leonardo Medeiros dizendo que as palavras que ele mais odeia são “mezanino” e outra da qual não me lembro, daí fazíamos de tudo para encaixar tais palavras em frases. Algo sem graça hoje, mas divertidíssimo ontem.

Creio que foi no carnaval de 2006 que quebramos a garrafa de vodca na minha mochila. Tínhamos que atravessar a Álvaro Ramos do prédio do Ricardo até à vila do Willy e chovia torrencialmente. Colocamos a garrafa na minha mochila para corrermos. Corremos. Quando chegamos à casa do Willy, totalmente encharcados, tive a lamentável ideia de pedir para que a Maria Eduarda Serpa guardasse a mochila com a vodca, ao que ela a tacou longe, quebrando a garrafa e rasgando todo o tecido. Quanto mais eu ficava puto por sua burrice, mais ela falava “foda-se” para me irritar. Dizia: “eu quero é que se foda, eu quero é que essa mochila se foda!” Todos riam. Vontade de esnagá-la e esconder o corpo. No dia seguinte minha mochila continuava fedendo a álcool. Somos amigos, eu e Duda, até hoje.

Saudade dos esporros monumentais que levávamos do Chico Seffrin, mais conhecido como Chico Chicote, ou Poderoso Chefão, como queiram, porque o Gustavo sempre sentiu prazer em escolher o caminho mais difícil;  a saber, sempre o errado. Íamos para a masmorra com ele. Era tenso, mas divertido. Perdemos metade de um carnaval assim. Não importa, perderíamos outros por um motivo ou por outro: naquele estávamos todos juntos, uns dez ou quinze. Tínhamos um dom que perdemos: ver oportunidade para a diversão onde não havia.

Saudade do reveillón de 2005/2006. Fui mijar à beira da água de Ipanema, perdi uma havaiana, entreguei a outra para Iemanjá e curti uma rave inteira descalço, virado, sem tomar um comprimido sequer, juro. Lá pelas três da manhã eu não era ninguém, mas continuei indelével até o dia seguinte. Lembro do Williham falando: “Você é um méarda de méarda, perdeu o chinelo! Hahahahaha!” – Todos riam, todos riam. A certa altura, foi ele quem perdeu o chinelo, na areia. Pertubei-o como se não houvesse amanhã.

Gustavo agora mora a poucas quadras de mim, aqui no Engenho de Dentro, mas certamente nos veremos pouco. No antigo apartamento no qual ele morava, na rua Venâncio Flores, palco de tantas festas, tantas histórias, seu pai guardava um livro que eu costumava ler sempre. Era o Vivir para contarla, a autobiografia de Gabriel García Márquez. Nunca me esquecerei da epígrafe do livro, do próprio autor, que dizia: La vida no es la que uno vivió, sino la que recuerda y cómo la recuerda para contarla. Ou, como na tradução: A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.

Feliz aniversário, Guilherme!

2 Comentários

Arquivado em Literatura

Palavras de Guimarães Rosa

“(…) Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém! Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranquilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?!

Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons… De sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de religião só. Eu podia ser: padre sacerdote, se não chefe de jagunços; para outras coisas não fui parido. Mas minha velhice já principiou, errei de toda conta. E o reumatismo… Lá como quem diz: nas escorvas. Ahã.

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma… Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Midubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. (…)”

(ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, págs. 15 e 16)

1 Comentário

Arquivado em Filosofia, Literatura

Náufragos

De Guilherme de Carvalho, da França Antártica
Para Eduardo Bemfica, na Veneza Americana

Entre o Capibaribe e a Baía de Guanabara,
qual abismo! – O céu tomba – Tromba d’água!
Por entre as ruas, entre as casas: a nado
se faz travessia doida: nada.

Cabral, Bandeira, Rosa – dão-me um acento.
(o sertão está em toda parte:
em parte água, em parte tudo)

Vejo-os todos a salvar os manuscritos.
Vejo-os vendo Camões.
(Os olhos atônitos!)
Ele, nadando, fluindo, nadando…
Camões não fala: nada.

E a peste, as putas, as páginas, os padres
na cidade a nadar. A nadar. A nada.
Que bicho vai submerso, náufrago?
Ratos de boia, ratos-bois, bubônicos-ratos.

Ôxe! Rato-homem.

1 Comentário

Arquivado em Literatura

10 artigos do mês – Abril 2011

Alcir Pécora pode ter razão, mas é o troll do mês

As listas que eu passarei a fazer não estão em numeração decrescente de qualidade, tampouco crescente; é apenas uma enumeração ordenada, nada mais. A lista dos bons artigos publicados em abril foi feita às pressas, depois de’u ter tido a ideia, logo não abrange todas as leituras que eu fiz e esqueci, nem leva em conta publicações estrangeiras que eu mais ou menos acompanho e vagarosamente leio, agarrado ao dicionário, quando um assunto me interessa muito. Em maio a seleção será mais criteriosa e carregará uma relevância maior.

1) A Face Humana da Sociologia – Zygmunt Bauman – O Estado de S. Paulo (30/04/2011)

Bauman: dispensa apresentações. Em entrevista ao Estado de S. Paulo, o grande mestre da sociologia fala de sua especialidade: o mundo contemporâneo.

2) A Crítica de Cinema Acabou – Werner Herzog – Revista Cult (01/04/2011)

Werner Herzog, renomado diretor, comenta sua obra e atual situação do cinema e da crítica em entrevista à Cult.

3) Impasses da literatura contemporânea – Alcir Pécora – Prosa & Verso (23/04/2011)

Alcir Pécora, crítico literário e professor da Unicamp, dá uma porrada (não há outra expressão possível) no “mundo das letras”. Certamente o artigo mais polêmico do mês. Imperdível! – Prometo voltar a este assunto.

4) Direitos Humanos, um bom começo – Oscar Vilhena Vieira – O Estado de S. Paulo (09/04/2011)

Já tinha colocado o texto aqui no blog, mas a partir de agora não colocarei mais os textos, por motivo de espaço e de organização. Quando o texto for muito bom, entrará nas listas mensais que pretendo fazer. Neste, o professor de direitos fundamentais da FGV analisa os 100 primeiros dias da política de Dilma Roussef, que já se notabiliza plos esforços em prol dos direitos do homem.

5) Crescendo sem educação – Luiz Costa Lima – Prosa & Verso (02/04/2011)

Luiz Costa Lima: porque a lucidez é sempre bem-vinda!

6) Videla é a mãe – Marcos de Azambuja – Piauí (data indisponível)

Quando a Piauí coloca para escrever o seu time, i. e., a “turma da cia. das letras”, ou a “turma da flip”, como queiram, é aquele show de opinião “cult bacaninha” de “pretensão indie com toques em sépia”. Mas continuam sendo os melhores na seleção de articulistas, cronistas e ensaístas ocasionais para a revista. Em abril, três golaços.

Azambuja, ou, como carinhosamente o chamo, “o embaixador da gravatinha borboleta”, por seu gosto pelo antigo e aristocrático adorno, é uma das maiores mentes desse país. No Globo News Painel, com William Waack, sempre contribui para a discussão com fino humor e carisma. Em “Videla é a mãe” este espírito vem à tona. Pelo seu estilo de escrita, por sua lucidez, por sua memória, vivência e experiência é que considero este o melhor (artigo?; ensaio?; relato?) que li no mês.

7) Permanência e desfiguração – Claude Lanzmann – Piauí (data indisponível)

Claude Lanzmann, que virá para a Flip deste ano (ler primeira frase do tópico 6), comenta sua relação com Deleuze, Sartre, Simone de Beauvoir, sua irmã e destes todos entre si. Não posso antecipar mais nada, porque é uma leitura deliciosa e inesperada. Uma joia!

8 ) Tufão, tromba, trombeta: dadá – Saul Steinberg – Piauí (data indisponível)

Piauí revivendo um cartunista da The New Yorker que morreu há doze anos? A intenção é esquisita, mas vá lá, vamos dar um crédito. Nem diria que é um artigo, diria que é um belíssimo ensaio sobre si mesmo e os efeitos do século XX. Incrível!

9) O feijão e a reforma – Renaud Lambert – Le Monde Diplomatique Brasil (01/04/2011)

O jornalista francês disseca a atual situação econômica de Cuba, pouco mais de 50 anos depois da revolução. Socialismo real para os comunas atuais refletirem a respeito.

10) A crítica como exploração – Giovanna Dealtry – Jornal O Globo (30/04/2011)

Enfim, a resposta ao artigo de Alcir Pécora, publicada 1 semana depois. Leitura tão indispensável quanto a da que a precede.

1 Comentário

Arquivado em 10 artigos do mês

“O que é Política?”, por Hannah Arendt

Fragmento 1

Agosto de 1950

1. A política baseia-se na pluralidade dos homens. Deus criou o homem, os homens são um produto humano mundano, e produto da natureza humana. A filosofia e a teologia sempre se ocupam do homem, e todas as suas afirmações seriam corretas mesmo se houvesse apenas um homem, ou apenas dois homens, ou apenas homens idênticos. Por isso, não encontraram nenhuma resposta filosoficamente válida para a pergunta: o que é política? Mais, ainda: para todo o pensamento científico existe apenas o homem – na biologia ou na psicologia, na filosofia e na teologia, da mesma forma como para a zoologia só existe o leão. Os leões seriam, no caso, uma questão se só interessaria aos leões.

É surpreendente a diferença de categoria entre as filosofias políticas e as obras de todos os grandes pensadores – até mesmo de Platão. A política jamais atinge a mesma profundidade. A falta de profundidade de pensamento não revela outra coisa senão a própria ausência de profundidade, na qual a política está ancorada.

2. A política trata da convivência entre diferentes. Os homens se organizam politicamente para certas coisas em comum, essenciais num caos absoluto, a partir do caos absoluto das diferenças. Enquanto os homens organizam corpos políticos sobre a família, em cujo quadro familiar se entendem, o parentesco significa, em diversos graus, por um lado aquilo que pode ligar os mais diferentes e por outro aquilo pelo qual formas individuais semelhantes podem separar-se de novo umas das outras e umas contra as outras.

Nessa forma de organização, a diversidade original tanto é extinta de maneira efetiva como também destruída a igualdade essencial de todos os homens. A ruína da política em ambos os lados surge do desenvolvimento de corpos políticos a partir da família. Aqui já está indicado o que se torna simbólico na imagem da Sagrada Família: Deus não criou tanto o homem como o fez com a família.

3. Quando se vê na família mais do que participação, ou seja, a participação ativa na pluralidade, começa-se a bancar Deus, ou seja, a agir como se se pudesse sair, de modo natural, do princípio da diversidade. Ao invés de se gerar um homem, tenta-se criar o homem na imagem de si mesmo.

Porém, sob o ponto de vista prático-político, a família ganha sua importância inquestionável porque o mundo assim está organizado, porque nele não há nenhum abrigo para o indivíduo – vale dizer, para os mais diferentes. As famílias são fundadas como abrigos e castelos sólidos num mundo inóspito e estranho, no qual se precisa ter parentesco. Esse desejo leva à perversão fundamental da coisa política, porque anula a qualidade básica da pluralidade ou a perde através da introdução do conceito de parentesco.

4. O homem, tal como a filosofia e a teologia o conhecem, existe – ou se realiza – na política apenas no tocante aos direitos iguais que os mais diferentes garantem a si próprios. Exatamente na garantia e concessão voluntária de uma reivindicação juridicamente equânime reconhece-se que a pluralidade dos homens, os quais devem a si mesmos sua pluralidade, atribui sua existência à criação do homem.

5. A filosofia tem duas boas razões para não se limitar a apenas encontrar o lugar onde surge a política. A primeira é:

a) Zoon politikon: como se no homem houvesse algo político que pertencesse à sua essência – conceito que não procede; o homem é a-político. A política surge no entre-os-homens; portanto totalmente fora dos homens. Por conseguinte, não existe nenhuma substância política original. A política surge no intra-espaço e se estabelece como relação. Hobbes compreendeu isso.

b) A concepção monoteísta de Deus, em cuja imagem o homem deve ter sido criado. Daí só pode haver o homem, e os homens tornam-se sua repetição mais ou menos bem-sucedida. O homem, criado à imagem da solidão de Deus, serve de base ao state of nature as a war of all against all, de Hobbes. É a rebelião de cada um contra todos os outros, odiados porque existem sem sentido – sem sentido exclusivamente para o homem criado à imagem da solidão de Deus.

A solução ocidental dessa impossibilidade da política dentro do mito ocidental da criação é a transformação ou a substituição da política pela História. Através da idéia de uma história mundial, a pluralidade dos homens é dissolvida em um indivíduo homem, depois também chamada de Humanidade. Daí o monstruoso e desumano da História, que só em seu final se afirma plena e vigorosamente na política.

6. Torna-se difícil compreender que devemos ser livres de fato num campo, ou seja, nem movidos por nós mesmos nem dependentes do material dado. Só existe liberdade no âmbito particular do conceito intra da política. Nós nos salvamos dessa liberdade justo na “necessidade” da História. Um absurdo abominável.

7. Pode ser que a tarefa da política seja construir um mundo tão transparente para a verdade como a criação de Deus. No sentido do mito judaico-cristão, isso significaria: ao homem, criado à imagem de Deus, foi dada capacidade genética para organizar os homens à imagem da criação divina. Provavelmente, um absurdo – mas seria a única demonstração e justificativa possível à ideia da lei da Natureza.

Na diversidade absoluta de todos os homens entre si – maior do que a diversidade relativa de povos, nações ou raças – a criação do homem por Deus está contida na pluralidade. Mas a política nada tem a ver com isso. A política organiza, de antemão, as diversidades absolutas de acordo com uma igualdade relativa e em contrapartida às diferenças relativas.

(ARENDT, Hannah. O que é Política? Rio de Janeiro: Bertrand, 2004; pág. 21-24)

Deixe um comentário

Arquivado em O que é Política?, Política

Palavras de Rui Barbosa

“A pátria não é ninguém, são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à ideia, à palavra, à associação. A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo: é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade. Os que a servem são os que não invejam, os que não infamam, os que não conspiram, os que não sublevam, os que não delatam, os que não emudecem, os que não se acobardam, mas resistem, mas esforçam, mas pacificam, mas discutem, mas praticam a justiça, a admiração, o entusiasmo.”

(Rui Barbosa, apud GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna. Rio de Janeiro: FGV, 2010)

“A pátria é a família amplificada. E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício. É uma harmonia instintiva de vontades, uma desestudada permuta de abnegações, um tecido vivente de almas entrelaçadas. (…) Multiplicai a família, e tereis a pátria”.

(Rui Barbosa, apud Coleção Nosso Século, organizada pela Editora Abril, 1985)  

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura, Política, Política Interna

Tiros em Realengo: uma análise leiga

Columbine é uma cidade do Condado de Jefferson, no estado do Colorado, nos Estados Unidos. Ainda seria uma cidade mundialmente desconhecida se Eric Harris e Dylan Klebold não tivessem entrado em um colégio e assassinado 13 colegas e professores e deixado 21 feridos, antes de cometerem suicídio. E isto poderia já te sido esquecido se 1) não tivesse ocorrido outras vezes casos semelhantes; 2) se Michael Moore não tivesse realizado o filme Tiros em Columbine. Se Columbine é chamado de massacre, então isto se torna uma classificação criminal. Percebam: não chamaram o caso de Realengo como chacina, mas como massacre. Portanto, sim, é algo novo.

Muitos colunistas, articulistas, cronistas, ensaístas, enfim, blogueiros, irão se utilizar de exemplos de casos dessa natureza ocorridos na Europa e, sobretudo, nos EUA. Já antecipo alguns deles.

1. Um histórico de massacres escolares no mundo

Chamado de “explosão em Bath School”, o maior atentado contra escolas dos EUA ocorreu ainda na década de 1920. Em 18 de maio de 1927, um funcionário da escola, Andrew Kehoe, responsável pela tesouraria, agiu contra o imposto de propriedade da sua fazenda agrícola. Kehoe utilizou fortes explosivos para detonar a escola e tudo que estava dentro. Matou 45 e feriu 58.

Em 11 de junho de 1964, no dia de seu aniversário de 42 anos, Walter Seifert invadiu uma escola primária católica localizada em Colônia, na Alemanha, e matou oito estudantes e dois professores. Ao sair do local do crime, Seifert ingeriu inseticida e faleceu no dia seguinte devido ao seu próprio envenenamento. Matou 11 e feriu 22.

Alunos da Universidade do Texas presenciaram um dos piores ataques a escolas do país. Ocorrido no dia 1º de agosto de 1966 e protagonizado por Charles Whitman, um antigo major da marinha (fuzileiro naval) e estudante da universidade. Whitman subiu numa torre e começou a atirar fazendo dezenas de vítimas. Só parou quando foi morto por policiais. Matou 14 e feriu 31.

Marc Lepine, de 25 anos, matou 14 mulheres e feriu mais 13 pessoas na Escola Politécnica de Montreal, além de tirar sua própria vida, no dia 6 de dezembro de 1989. Foi o pior massacre escolar da história do Canadá.

Em 13 de março de 1996, Thomas Hamilton matou 16 crianças e um professor em um jardim de infância de Dunblane, na Escócia. Depois do feito, o assassino cometeu suicídio.

Após ser expulso da escola onde estudava, Robert Steinhäuser, de 19 anos de idade, voltou a sua antiga escola para se vingar e matou 13 professores, dois estudantes e um policial. O que passava na cabeça do rapaz ninguém sabe, pois ele se matou após o atentado ocorrido em 26 de Abril de 2002 na Alemanha.

O sul-coreano Cho Seung-hui, de 23 anos de idade, foi o responsável pelo pior massacre em uma universidade americana. No dia 16 de abril de 2007, munido com duas armas o jovem entrou atirando no campus da universidade da Virgínia, fazendo 32 vítimas fatais e ferindo 21. Logo após, Cho Seung-hui tirou sua própria vida.

2. O massacre de Realengo e uma análise leiga

Na manhã do dia 7 de abril de 2011, Wellington Menezes de Oliveira entrou na escola Tasso da Silveira, da qual era ex-aluno, e assassinou, em números atuais, 11 crianças, ferindo mais 13. Depois se matou. Deixou uma carta na qual fala em “uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado a uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido(…)” E ainda fala que “os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem neste lençol poderão me colocar em meu caixão.”

Já sabemos o que vai acontecer. Já ouço rumores de que irão investigar se ele era ou não muçulmano, se tinha ou não contato em mesquitas, o que configura caso de total insanidade de uma sociedade que aspira a uma posição mais digna em um mundo multipolar. Possivelmente também vão bombardear as análises dos jornais com velhos clichês de esquerda como “eis um marginalizado revoltado com sua situação social”, ou “eis mais um jovem pobre que só enxerga a violência como meio de se destacar na sociedade”. Coisas assim vão pipocar, eu sei. Como vão pipocar ataques da direita sanguinária defendendo, para não perder a oportunidade, a pena de morte e a redução da maioridade penal, mesmo que isso não tenha nada a ver com o caso. Vão tratar o policial que atirou na perna de Wellington como heroi, como se fosse ele, e não o Estado, agindo, e essa ignorância irá me irritar. E não posso esquecer do fator deus. Deus será muito comentado, sem ajudar nem atrapalhar em nada.

É uma questão social? Sim. Mas também é uma questão psicológica, educacional, econômica, histórica, política, filosófica… Mas se eu tivesse que chutar um chute calculado, pediria para que focassem no assunto com um viés de psicologia social, pensando no impacto psicológico causado pelo modo de vida e pelas dinâmicas da sociedade, hoje. Esse tipo de crime começa a ocorrer nos países em determinados estágios do progresso, como ataques ao próprio significado de civilização e cultura. Não é preciso ser Ph.D. em nenhuma dessas disciplinas para entender que massacres em escolas têm, para o perpetrador, o significado de ataque à sua própria formação educacional e social. Eles atacam as suas próprias escolas, colégios e universidades. Eles querem atacar as bases da comunidade na qual vivem para que crianças e outros jovens não passem pelas angústias e pela confusão mental por que passaram. E eles se matam para evitar um julgamento que, ora, segundo eles, ninguém pode fazer. Eles são enviados de deus. Quiçá, são eles próprios deus.

Por mais que seja absurdo, no mundo em que vivemos, o que há aí é um cartão de visitas do Brasil para o mundo desenvolvido, no qual está escrito: “Nós, da República Federativa do Brasil, diante dos últimos acontecimentos ocorridos no Rio de Janeiro, pedimos, embora consternados pela tragédia, o ingresso no clube dos grandes países do mundo, reinvindicando acordo verbal entre os povos das nações. Como prova de nosso progresso e de nosso estágio de civilização vão mais de 11 laudos de óbito de nossas crianças.”

Tenho o hábito de ler alguns jornais estrangeiros todos os dias. Hoje, especificamente, não quero abri-los.

23 Comentários

Arquivado em Política Interna