Sobre o provincianismo II

Ah, a questão de Paris! Talvez seja o problema central deste provincianismo arraigado e bobo do brasileiro. E, aqui, me defendo, de uma maneira ou de outra, porque eu conheci Paris sem conhecê-la. E fiz isso porque gosto de Paris, assim como gosto de Darfur ou Pequim; e gosto de todas as cidades do mundo porque senti o gosto delas nos mais variados pesadelos em que me afoguei nas noites da minha vida. Caminhei por entre as ruas de Ruanda milhares de vezes. E como saber que era Ruanda? Simples, se ponho outra pergunta: que importa qual a cidade se o que vejo é deserto e morte? E que importa, de modo análogo, saber a beleza de uma cidade que já se sabe felicidade? Eu já sei – moro no Rio de Janeiro – que a beleza não pode ser nada menos que o morro Dois Irmãos, nem mais que a criança que eu vi sorrindo ontem. Aí já terei dito tudo, completamente tudo, se assim me compreendem. Ora, muito mais terei explicado sobre provincianismo se eu disser: pois bem, e se pudesses escolher, não onde viver, mas onde morrer, então onde morrerias? O provinciano típico responderá: mas, claro, eu gostaria de morrer aqui onde estou. Não sei, mas eu, Guilherme, odiaria morrer onde estou, porque aí teria sido a derrota ao invés da glória, a passividade em detrimento da aventura, o medo em vez do risco consciente. E – caso eu pense na memória – toda vez em que volto a pensar naqueles que gosto e naqueles que não gosto, por algum motivo todos os que não gosto são os provincianos-mor da humanidade que conheço. Mas, porra, não lhes parece serem tão idiotas a ponto de não terem enxergado na vida nada além do que dois palmos de paisagem? Daí, então, vou lembrando de todos, todos mesmo, e foram muitos os provincianos que conheci; todos com aquele vago ar de estar-rico-no-futuro em vez do entusiasmo do estar-rico-agora, não importando se em espécie monetária ou potencial intelectual. Pensando assim, vejam, a melhor maneira de não se tornar um imbecil da província é tornar-se mendigo.

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Um comentário sobre “Sobre o provincianismo II

  1. Espero que vc termine este livro!! Sobre o provincianismo é realmente difícil… Todos o odiamos, mas todos acabamos por ter um pouco dele… Afinal, somos brasileiros né, e isso já diz muito… Parabéns pelo texto, estás afiado como nunca e delicado como sempre =)

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