As canções de litoral

Penso sempre no litoral como uma paisagem, como uma paisagem da memória. Vejo-me eu, menino, brincando de colher as pedras para atingir o seio da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. Do Rio de Janeiro, meus avós me enviavam cartões-postais com as mulheres cariocas de fio-dental; e creio que, ali, pequeno, eu elegi o Rio de Janeiro como a melhor cidade do mundo – uma cidade onde as mulheres andam quase nuas e o sol nunca descansa. Pois bem, vim para cá aprender a ler; não que lá eu não pudesse, mas foi assim que foi. Não me recordo, entretanto, do primeiro dia em que fui à uma praia do Rio de Janeiro, mas de vez em quando surge uma foto aqui e ali e eu me acho bonitinho. Quando me esforço a lembrar de algum dia na praia, só consigo recordar das inúmeras férias em que eu passava em Mangaratiba, na casa de meus primos. Lá eu cavei a areia para encontrar tatuís, aprendi a tomar chicabon e me apaixonei pela filha do dono do bar. Isto tudo pode ser mentira, vocês terão de acreditar em mim; contudo hão de convir que a minha infância não foi lá das mais aventurescas – eu já ia contar que remei num bote e fiquei a uns 20 metros da areia! (oh! que distância! que Titanic!) Bem, eu cresci também, e não sei por que motivo essas viagens para lá escassearam. Muito tempo depois, creio que pelo movimento adolescente, voltei a ir para lá passar as férias e caçar menininhas indefesas vestido de piranha e com um spray de espuma. Neste ínterim de carnavais, passei a frequentar as praias da Zona Sul e, um pouco menos, as da Região dos Lagos. E, agora, podemos ir em direção ao título do texto, enfim. – Sempre me recordo, como todo mundo, de fatos e pessoas a partir das músicas que escuto. Passei muito tempo acreditando que músicas ruins não serviam para nada, e que elas poderiam representar a escória da cultura popular. Ocorre que hoje me peguei pensando que, não fossem as músicas funcionarem como crônica, a nostalgia não poderia acontecer tal como acontece. Todos aqueles trogloditas sarados e aquelas mulheres vazias que encontrei em carnavais e em boates que frequentei compõem a paisagem da minha memória e, por isso, só por isso, é que lembro deles. Porque a Ivete Sangalo, o Chiclete com Banana, o Catra, o Ja Rule e o Mc Marcinho estão gravados em mim como paisagem: uma paisagem cuja tela foi pintada a carros tunados, competições de altitude sonora, mulheres vazias, homens bombados, música duvidosa e um pouco de álcool. E, quem sabe, por causa disso, a minha adolescência não fora tão ruim assim…

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3 comentários sobre “As canções de litoral

  1. Adorei, irmão. Mas só se achava bonitinho quando era pequeno ! Hahaha, beijinhos.

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