José Samarago e Nikki Yanofsky

No dia em que José Saramago morreu, eu não pensara em literatura portuguesa. Não pensara nem em literatura. Não havia pensado, ao acordar naquela manhã, em especial, nada que não fosse o mais absoluto do terreno. Levantei-me, tomei um banho, tomei café, escovei os dentes furiosamente e saí para o enfadonho curso de inglês. Quando voltei, lá pelas dez, recebi uma mensagem SMS: “Jose Saramago partiu… Que perda! Bj” – seguida de outra: “Vc hoje praticamente perdeu uma pessoa da sua familia. Minhas condolencias… Bjos” – Fiquei ali, no quarto, enquanto esparramava minha mochila na cadeira, minhas chaves  na escrivaninha, meu maço de cigarros, meu isqueiro, minhas moedas. Eu não estava feliz, nem triste. Oitenta e sete anos, pensei, sabe-se lá o que é isso… Eu estava imóvel, porque o mundo andava, e o Saramago morreu. Não fui, também, daquelas pessoas que de pronto afirmam: ah, agora o mundo acabou! pois, penso, quando ele começou? Em que momento, digamos, podemos ter certeza, ou a sorte, de nos julgarmos meio de alguma História? Com que pretensão afirmamos que a morte de alguém “importante” é mais ou menos digna de lágrima? Eu não estava, repito, triste: eu estava sem uma perna, ou queimado, ou ferido. E quem já se feriu a ponto de envergonhar-se sabe que a gente engole o choro, olha para os lados e a garganta dói. Você não está mais triste ou menos triste, mais rancoroso ou menos, você está paralítico. Eu perdi um amigo. Sabe-se lá o que é perder um amigo… Bem, a manhã não foi a mesma, evidentemente, e nem me atrevi a alcançar um livro dele a esmo e ler algumas páginas como alguém que tenta recuperar um morto. Quis que ele morresse como um homem comum, e por mais que alguns  imaginem que isso fora um sacrilégio, estou certo de que não é mais fácil morrer quando sua sombra é, de antemão, imortalizada. E choveram órfãos, desesperados, falsos-leitores, falsos-amigos, um tantão de gente sem graça, e quando apareceu a Igreja benevolente eu desliguei o computador, a tevê e fui cagar. Ora, e o que mais eu poderia fazer se o Saramago morreu? Se morreu, morto está. – Já à tarde, religuei o computador a fim de espairecer, pesquisar música, viajar pelo site da Billboard, e eis que me surge nada mais nada menos que Nikki Yanofsky. – Quem? – Seu disco estava entre os 3 mais vendidos da seção de Jazz naquele dia e, logo eu, que nunca havia olhado essa específica lista, fui procurar o CD para baixar (nem que eu quisesse comprar, não está à venda no Brasil, para variar só um pouco!). Baixei, comecei a ouvir. Era uma menina. O Google acusou: 16 anos. De-zes-seis anos. Quando nasceu, Saramago já aniversariava o 71°. Que voz, que arranjos, que talento, que canções; era tão legal que nem parecia Jazz! E nem era tanto, afinal; li depois que é Pop-Jazz, ou Jazz-Pop, ou coisa que o valha. Que importa? Nikki salvou meu dia. Não deixem para amanhã, ou para depois, ou para depois-depois… Ouçam Nikki Yanofsky hoje! – E para não ficarem falando por aí que eu sou egoísta, vou deixar aqui o endereço de onde eu comprei.

http://www.4shared.com/file/WaYUrDxq/Nikki_Yanofsky-Nikki.htm

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