bruno, Eliza e a bíblia

É como diz a bíblia (sei que é com l. maiúscula, eu sei, eu sei): “no princípio era o verbo”. Em março, bruno disse, em pleno Dia Internacional da Mulher: “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher; quem nunca brigou com a mulher?; quem nunca até saiu na mão com a mulher?” – Ele saía em defesa de outro criminoso (Adriano, a saber) – E eu já poderia parar por aqui, pois vocês já sabem aonde quero chegar com meu raciocínio. O goleiro do flamengo, bruno, é a prova viva de que é preciso prestar muita atenção nas frases, nas declarações, nas intenções verdadeiras por trás do que é dito pelas pessoas. Quando Lula diz que quer regular a imprensa, acreditem, ele quer censurar. Quando Ahmadinejad afirma que quer extinguir o Estado de Israel, acreditem, ele quer. Quando Hitler entrou numa cervejaria ainda na década de 20 com uma ideia de se armar, entrar em guerra e exterminar os judeus , o ocidente simplesmente ignorou aquele baixinho com bigode esquisito. Deu no que deu. A minha tese é, no fundo, uma pergunta: por que diabos ninguém, agora, comenta o que ele falou em março? Acho engraçado o descomprometimento do ser humano com a memória, no qual esquecemos para não nos acusarmos. Quem me conhece, e anda comigo, sabe que eu fiquei profundamente incomodado com a declaração de bruno, embora achasse que ele apenas batia na mulher (como deve fazer, naturalmente). Por trás daquela declaração não havia simplesmente uma informação, mas uma mensagem – e muito clara: a banalização do crime – como ocorreu nos períodos que citei acima. Hoje, ninguém mais comenta como tudo isso começou e, se comenta, não dá o devido valor ao fato. Ah, mas ele pediu desculpas. Sim, pediu, mas não foi julgado e condenado socialmente pelo crime verbal de banalizar a agressão e o subjugo. Agora, Eliza está morta. A culpa: coletiva. Ele avisou quem era, ela avisou que ia morrer. Tudo na internet, na tevê, e ninguém ligou. E a ironia é enorme: quanto mais pomos a culpa em bruno, mais a culpa é nossa. Exatamente como na bíblia e sua lógica. “No princípio era o verbo.” – Como disse certa vez Saramago, e eu concordo porque conheço bem dos 10 anos de colégio católico, a bíblia é uma narrativa de assassinos, pedófilos, genocidas, corruptos e afins. Na narrativa de Eliza, há sempre algo que tenta esconder o corpo, que tenta omitir a culpa, desde antes do crime ocorrer.  Tudo se transformou, novamente, num show. – É duro, mas, nessa história, nós é que fomos (e continuamos a ser) os rottweillers.

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