Sobre o provincianismo III

Sou um escritor provinciano: conheço todos os meus leitores; ou todos os meus leitores me conhecem. Isso é ruim, mas é bom; bom, mas ruim. – E, por essa causa, posso ouvir diretamente os comentários, as repreensões, os pedidos etc. Apesar do post mais lido do blog ser “As canções de litoral”, não sei por que motivo muitos comentam dos textos sobre o provincianismo. Justo estes que eu imaginei os mais fechados, os menos interessantes. E a causa deve residir em uma necessidade primeira de todos que conheço em combater este tipo de pensamento arraigado, principalmente, na cabeça do carioca suburbano, cuja natureza eu poderia demonstrar em algumas linhas, breves linhas. – O carioca suburbano provinciano (CSP) tem um único sonho na vida: morar noutro lugar da cidade que não o subúrbio. Ele empreenderá planos mirabolantes, venderá a alma para o diabo, subornará pessoas e, numa eventualidade, trabalhará muito. Quando digo “o CSP tem um único sonho, a saber, morar noutro lugar da cidade que não o subúrbio”, leia-se: morar na Barra da Tijuca (alguns CSP com mais bom-gosto, como eu, sonharão com Ipanema ou Leblon). E, para mim, a questão da Barra da Tijuca é tão problemática, em si, que o romance que eu escrevia, ao tratar dela, se perdeu e eu nunca mais me achei; e não estou brincando, é sério. Quando fui investigar o início do plano de Lúcio Costa, as empreiteras, o boom imobialiário, a arquitetura e o urbanismo do “bairro”, só pude concluir que a Barra da Tijuca é a expressão mais profunda do nosso provincianismo, pois, ao tentarmos dar uma cara brasileira, ou carioca, à ela, só conseguimos torná-la caótica referencialmente, atribuindo-lhe um status de modernidade que não só não alcançamos, como não construímos. Que outro lugar, no mundo, possui um shopping com uma estátua da liberdade na fachada? Que outro lugar, no mundo, tenta ser todas as cidades do mundo, menos a sua? – Se alguém lhe disser que fora morar lá por causa da segurança, acredite, mas não acredite; tenho indícios de sobra para crer que a Barra da Tijuca vem sendo construída há 500 anos, em nossas mentes. Se sou um CSP? Mas é claro: sou refém da educação e da formação sociopolítica que recebi desse país em cuja terra piso. Amanhã, continuo com mais características do carioca suburbano provinciano, esta espécie que nunca entrará em extinção nesta linda e pobre cidade. Lembrem-se disso, parisienses, pobre cidade.

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