A Maria Gadú

Há tempos venho repetindo uma frase feito um mantra – Maria Gadú salvou a música popular brasileira. E salvou (ou deu-lhe sobrevida) porque acudiu os ouvidos de nossa geração, a qual, para ouvir a produção recente de nossa música, tinha de aguentar, envergonhada, cantoras inexpressivas com canções sem nenhum nexo e muito menos paixão, calor – enfim, sem o ethos da civilização latinoamericana. Quem, de maneira clara ou fingida, compara Gadú a Cássia Eller, faz, a meu ver, não uma comparação artístico-musical, mas estética. E a classificação estética a priori é a atitude fascista por excelência.

Ontem, quando acordei, o máximo que poderia esperar de minha vida era beber umas cervejas na Lapa com meus longos amigos e aguardar a alvorada, que se anunciaria linda, mais cedo ou tarde. Iríamos, pois, beber cervejas diferentes na medida em que elas iriam acabando nas geladeiras do bar, comer uns pastéis-especialidade-da-casa, dar adeus ao garçom e fim.

Fui para meu escritório. Meu escritório é a Lapa. Pedi cervejas. Já estava na quarta ou na quinta quando alguém, muito bondoso, avisou que possuía quatro ingressos para o show de Jorge Vercilo e Maria Gadú no camarote. Quatro? (e eram quatro na mesa) Muita gente vendiria minutos de prazer (acham que brinco, né?!), ou aquilo que possui de maior valor – como, sei lá, a dignidade – para conseguir este pedaço de papel para a eternidade materializados em pulseiras azuis, pratas e pretas. Sei lá se, no alto de suas ignorâncias, alguém iria, de fato, olhar e perceber que eram ingressos para Maria Gadú, aquela que salvou a música popular brasileira da frieza, da apatia. Ingênuo, perguntei se a cerveja era de graça. Naturalmente, era. A combinação música boa e cerveja de graça me pareceu tentadora demais.

Hoje, muitas pessoas viverão suas vidas sem saber que ocorreu um show que sublimará a história da música brasileira a tal ponto que, quando percebermos, sobrarão as migalhas do que apenas algumas almas retardadas que se aventuraram nessa empreitada fria, souberam explicar. Celebramos Maria Gadú. Saudamos Leandro Léo. – Este eu conhecia de longa data, desde 2001, 2002, quando estudamos no mesmo colégio católico no bairro do Encantado, subúrbio do Rio; ele já cantava muito bem e tinha certa fama por causa de um programa de tevê que, creio, passava aos domingos. – Muita alma mendiga de camarote e gente  fácil não terá entendido, finalmente, que se tratou de um show animado. (Aquilo que possui anima, vida, alma.)

Nunca antes eu havia estado em um camarote, de show ou boate, jogo de futebol ou quadra de escola de samba. Não tinha a menor ideia de como era aquilo em “realidade”. Há cinco minutos você estava apenas em um bar tomando umas cervejas; agora, está sendo servido, paparicado, comendo e bebendo de graça; mulheres lindas a crer que você é ator, cantor ou filho do Eike Batista. Mulheres vazias, bobas, e homens velhos que se julgam jovens, babando como abutres sobre as jovens menininhas, e as tratando como os canapés mais fáceis do recinto (eles devem crer em: já que a comida é liberada, a bebida é liberada, as mulheres…) – São lamentáveis as duas fomes. – No fim, é um choque a percepção de que as mulheres que você admirava pela tevê são feiinhas e os homens que você invejava são tristes drogadinhos imersos em um universo muito distante. Acredito que os camarotes são fatias de sonho, um isqueiro a esquentar a panelinha do caldo do nosso ego por algumas horas. A vida real é um sopro.

Mas, se esqueço de tudo isso, ainda sobra-me, felizmente, Maria Gadú e seu violão. Sua voz límpida e potente nos dá esperança de confiar o vazio das horas à novas canções em língua portuguesa, cuja poesia nos tocará o fundo da alma, o âmago do espírito. Como eu disse a ela ontem, de maneira indireta, por um amigo-mensageiro: daqui a 50 anos estaremos aqui de novo para comemorar a carreira não de uma artista, mas, se tudo der certo, de um monumento. Só tenho uma tristeza: a de ter de discordar com Nelson Rodrigues, que afirmou que “toda unanimidade é burra”. Maria Gadú é uma unanimidade que me fez acreditar que meus pares contemporâneos não são tão burrinhos e fúteis quanto eu imaginava. Obrigado, Maria!

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7 comentários sobre “A Maria Gadú

  1. Cara, amei o texto.
    Tenho uam certa PAIXÃO pela Gaduzinha, sou suspeita pra falar haha
    Mas realmente, a MPB andava meio sem sal nem açicar. Gadu com a sua doce e rouca voz, salvou meus ouvidos ♥

  2. Alice, querida, muito obrigado pelo comentário.
    Você me deu uma excelente ideia, que é encontrar nas minhas inúmeras pastas (trabalho do cão) o texto da nossa formatura.
    Adoro a Maria Gadú mas, do dia em que eu escrevi este texto para cá, ela tem me cansado um pouco com esse negócio de cover, cover, cover, só cover, para sempre cover… Gosto dela cantando suas próprias músicas.

    Beijos!

  3. Gui, que saudade!
    As vezes, quando me dá saudades do Pedro II, corro pro seu blog pra ler sempre os mesmos posts, rs…
    E por sinal, até hoje ainda procuro seu discurso do dia da formatura no meu pc, rs… Mas não acho 😦
    Ai vasculhando ele hoje aqui, achei esse post dedicado à Gadu!
    Não se se você sabe, mas sou uma mega fã dela!
    E o seu post está lindo…
    Ela é maravilhosa… e é muito bom saber que não sou só eu e as outras fãs (loucas, rs) que ela tem que gostamos dela e da sua maravilhosa voz.

    Beijos

  4. mais um intelectualzinho de esquerda q nao sabe nada de musica….

    [Resposta do autor do blog:]
    Faça um blog, escreva um texto me rebatendo e aí a gente debate o assunto…

  5. Olá ! adoreei Guilherme …
    posteei lá no blog do fã clube espero que naum se icomode com isso ..
    Maria Gadú é um amor de pessoa , uma voz linda enfim ..
    Obrigada por adimirar o trabalho dela nós fãs ficamos muito felizes com isso , e ela tbm eu garanto .
    beijos .

  6. Hum, eu acho que a Maria Gadú se perdeu no meio do caminho. Ela é talentosa e tal, veio de SP pra correr atrás do sonho, do que acreditava, uma história que conheço um pouco, pq quando ela chegou aqui foi a minha sogra que ela procurou pra empresariá-la. Infelizmente, por estar com muito trabalho, ela não pode, mas a história ainda não me ficou longe, pq tínhamos muitos amigos em comum e fui vendo a menina divertida que tocava violão com os amigos todas as noites crescer, aparecer, aparecer, aparecer até cansar. Músicas em todas as novelas, faustão, chorar no programa da xuxa, toda e qualquer campanha publicitária e até cantar com Jorge Vercilo! Ui, o cara da música do “Homem aranha”, céus, o que é o Jorge Vercilo? Sinceramente, acho que ela se vendeu e se perdeu, e lamento que estejam fazendo com ela o que fizeram um ano antes com a Mallu Magalhães, outra menina talentosa da qual fizeram um esteriótipo e uma bombação absurda. Acho que ela poderia ter ido por outro caminho, cantoras incríveis e que sabem o que querem não precisam se gastar até nos cansarem, a Marisa Monte não precisou disso, sabe? A Céu, que embora uma pequena parte dos brasileiros saibamos quem é enquanto na França é mais do que reconhecida, não precisa disso, sabe o que quer, a que veio e por isso, só faz o que acredita.
    Melhor para por aqui porque isso dá conversa pra uma noite inteira!

    Ok, a Gadu é talentosa, ms pra mim ela chacoalhou a música até nos fazer enjoar.

  7. Por pouco não fui ao show dela. Várias amigas foram, mas eu preferi não ir…

    Concordo sobre as pessoas que frequentam camarotes. Claro que nem todas as pessoas (principalmente homens) são assim, mas existem muitas. Sim, eu já fui a shows de camarote, mas definitivamente acho que não me incluo nesse grupo, haha.

    Assumo que fiquei um pouco de “invejinha” por não ter ido ao show, mas deixo pro próximo. Enquanto isso vou ouvindo aqui.

    Seus textos são ótimos.

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