A cada quinze dias, corto meu cabelo no Harlem

Moro no Engenho de Dentro, um dos bairros que compõem o Grande Méier, que compõe o subúrbio do Rio de Janeiro. Bairro olímpico, o Engenho de Dentro guarda o Estádio João Havelange, mais conhecido como “Engenhão”, com o qual muita gente comprou fazendas no Mato Grosso, mansões em Angra e e iates na Marina da Glória. Perto do estádio, cruzando a linha do trem, temos o Arranco do Engenho de Dentro, clube de samba e agremiação carnavalesca que existia e ainda existe. Perto dali, há uma academia, algumas pizzarias, traillers de hambúrger, padarias e bares, muitos bares. Sebo, nenhum. Livraria, nenhuma. Imbecis provincianos, aos montes – parecem brotar da água feito Gremlins. Casam entre si, arrumam uma fonte de renda razoável, colam adesivo da máfia local no vidro traseiro do carro, engordam até ficarem imobilizados, enchem a cara e morrem.

Gosto de morar aqui. Nunca ninguém se preocupou com isso mas, por ter sido, obviamente, um engenho de cana-de-açúcar, o bairro é plano; padece dentro de um vale, e é por isso que não tem muitos morros com casas populares. – De relevante, apenas o morro do 18 e o da Camarista Méier, dominados por alguma facção ou dissidência de alguma. – Não tenho a mínima ideia do montante da população que reside aqui, mas conheço a cara dela.

A cada quinze dias, corto meu cabelo no Harlem, que compõe Manhattan, que compõe Nova York. Pego o avião no aeroporto do Galeão, que existia e ainda existe, e, horas depois, estou quase pelado no aeroporto JFK para verificarem que não, não sou um terrorista e só cruzei a linha do Equador para cortar o cabelo em Manhattan. No caminho (daqui de casa até Charlie, meu cabeleleiro), passo por duas bancas de jogo do bicho. Não sei por que, mas todo anotador (seria anotador?) de jogo do bicho é velho de cabelo branco e bigode amarelo de tanto fumar. Bem, e ao contrário do que eu pensava quando era criança, o anotador de jogo do bicho não é o dono do jogo e vai morrer de câncer-de-pulmão no Salgado Filho, hospital público que existia e ainda existe aqui no Méier.

A máfia do Harlem é estranha. Ninguém cuida da contravenção inteira; uma família controla o jogo de bicho, cavalos de corrida e grupos de pagode; outra cobra a proteção dos comerciantes e controla casas de fama duvidosa; outra controla as máquinas caça-níqueis e brigas de galo; outra vende drogas e outra é formada por mafiosos a serviço do Estado, que controla o jogo do bicho e cavalos de corrida, cobra a proteção de comerciantes etc. etc. e tal ad infinitum.

Charlie, meu cabeleleiro, é careca. Juro. É careca e tem barba. Enquanto corta meu cabelo, ele me conta tantas histórias de prostitutas, pescarias, jogo do bicho e briga de galo que eu seria capaz de escrever um zilhão de textos para esta budega. Na fatia de tempo em que estou sentado na cadeira sobe-desce, caminham por detrás de mim vários mafiosos locais, vagabundos e aposentados, os quais vejo através do espelho, e me sinto dentro daqueles filmes de gângster que cresci assistindo. Charlie é meu psicanalista. Eu conto para ele sobre o Engenho de Dentro e ele finge compreender aquilo tudo. Casas de massagem, cassinos clandestinos, milícia, favela; acho que ele fica meio confuso mas tenta me ajudar. Quando termina de cortar o meu cabelo e fazer a minha barba, sempre me avisa que o preço diminuiu porque ninguém vai mais à barbearia em Nova York; todos deixam o cabelo e a barba crescerem em solidariedade à comunidade islâmica. Mas não adianta, porque, em Nova York, branco de barba grande é judeu ortodoxo. Enfim. Táxi amarelo. FBI. Avião. Polícia Federal. Free shop. Rio de Janeiro. Acho que estou dentro de um romance do Chico Buarque.

Voltei para o Engenho de Dentro. Enquanto eu viajava, um bicheiro sofreu um atentado na Barra da Tijuca no qual seu filho morreu – uma bomba acionada a distância. O bicheiro entrou na delegacia, deu depoimento, saiu. Engraçado. Pensei ter visto isso nos filmes. Já tenho uma nova história para debater com o Charlie.

PS: Se eu sumir, não procurem pelo meu corpo. Rola uma história de jacarés, pneus em chamas etc. e tal, de modo que será perda de tempo.

PS²: Pensei em deixar aqui um vídeo do nosso Frank Sinatra (o cantor, não o padre, quer dizer, não sei…). Quem não fizer a associação: Google.

 

Anúncios

5 comentários sobre “A cada quinze dias, corto meu cabelo no Harlem

  1. Agora vc quer criar problemas com os padres, aposto.
    Vc está demais, Guilherme de Carvalho!
    Rs

    Gostei de ler um texto sobre o tão famoso cabeleireiro Corleone.
    Bom, mto bom.

  2. É meu primo, você um suburbano saudosista como eu… Mas quando for cortar seu cabelo me fale, pois eu não corto em Manhattan, pois corto no Zezinho desde que me conheço por gente, bem alí, na Rua Borja Reis no nosso querido bairro, mas faço parte de um clube, ou uma máfia como aqui em nosso bairro muitos clubes preferem se passar, seleto, de Whisk, chamado 21 Club em Manhattan que costumamos chamar de “an American Legend”. Você, como eu, irá gostar muito do local, um excepcionalíssimo scott Club, onde executivos, homens de negócio e homens, se reúnem para beber essa iguaria escocesa, que me faz perder uma prata sempre… Risos… Um lugar distinto, onde existe uma área para os fumantes e apreciadores do bom e velho charuto, diferente do nosso país que por apreciarmos e termos um hábitos não muito saudáveis somos discriminados e estamos vivendo a margem dos locais sociais…

    Enfim, estou quase fazendo um post de Blog no comentário do seu Blog, mas temos várias maravilhas bairristas que não teve a oportunidade de conhecer e vivier, assim como eu não viví e conhecí as maravilhas da geração da sua mãe e vó… Enfim, um dia ouví que a mangueira (escola de samba) desfilava na Cruz e souza, mesma rua da Feira, achei incrível, mas é o capitalismo, consumo, vivemos em função de ganhar dinheiro e gastar… Risos… E com isso eu vou ganhando mais…

    Outra, que PORRRA de vídeo é esse? Uma mistura pop de dois ídolos… Das beatas pop’s do Padre Marcelo e dos bandidos pagodeiros do RIo de Janeiro e dos colegas de cela do Belo aqui bem perto do nosso bairro no Arí franco??? Depois me explique por favor…

    Forte abraço! E vamos viajando…

  3. Imbecis provincianos, aos montes – parecem brotar da água feito Gremlins.
    AAAAAAAAH TÁÁÁ! Você é um gênio!

  4. Você é doido mesmo… É melhor nem explicar essa relação p/ os amiguinhos desavisados, algum xiita pode aparecer e daqui a pouco tem padre falando mal de vc no JN… hahahahahhahaha mas muito bom, ÓTIMO mesmo… Beijo!!
    PS: Que video!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s