O cotidiano dos fantasmas: a fotografia de Flávia Paradise vê a UERJ

É preciso, antes de tudo, delimitar que crítica de cupincha é, de todo modo, crítica de cupincha: ambígua, duvidosa, inválida. Resenhar, criticar, ensaiar um amigo está na classe de atividades que são praxes na vida de todo intelectual ou pseudo-qual. Bem, e se digo isso é porque Flávia Paradise é minha amiga. E por ela foi fotografado esse meu retrato que ilustra o cabeçalho do meu blog, e, como se vê, não haverá, de modo algum, qualquer crítica negativa; até porque não entendo bulhufas de fotografia.

Fotografia: escrever, grafar, desenhar com foto, luz, imagem. As possibilidades técnicas são praticamente infinitas. A delimitação do que é arte, dentro dessas possibilidades, provavelmente é objeto de intensa discussão. Importa que essa arte tão reveladora transformou nossa visão de mundo e hoje compõe o nosso outro par de olhos. E se pensarmos na história recente, com o advento da fotografia digital, teremos claro que essa modalidade se incorporou de forma aterradora em nossa vida cotidiana. – É possível percebê-la nas casas, nas ruas, nas universidades, como olhos do instantâneo, e em shows e espetáculos, como olhos de fato. (Prefere-se assistir ao show pelas lentes da câmera, pela imagem técnica da tela.)

Ocorreu ontem, no sarau de poesia do Instituto de Letras da UERJ, promovido pelo diretório acadêmico, a exposição  (modestamente chamada de Expo UERJ) de uma série de fotografias da aluna de Inglês e minha amiga, Flávia Paradise, cujo tema central era a própria universidade. A série pode ser apreciada em http://bit.ly/awpwiV. Na apresentação, Guto Pina (também meu amigo; bem-vindo ao mundo acadêmico!) parece já ter dito tudo o que direi agora, porém muito mais sucinto e elegante, reflexo dos tempos do twitter.

Na fotografia de Flávia, temos uma dualidade que, a meu ver, é rara: a UERJ olha para a artista; artista vê a UERJ. Flávia não só estuda na universidade, como também mora de frente para ela, de modo que sua vida, por si só, já é um jogo de perspectivas aterradoras. E, para alguém de olhar aguçado, essa mudança diária de perspectiva propicia, certamente, a feitura de arte. É como se esse universo micro desse mostras imediatas de sua relevância no macro. Para quem, como eu, vive a UERJ todos os dias, esse novo olhar torna-se extremamente relevante – um novo olhar sobre o velho; uma mudança de perspectiva para o que se jurava definitivo, acabado, irredutível.

São proferidas muitas teorias acerca da arquitetura uerjiana. Dentre muitas que já ouvi, uma, em especial, me ocorre agora – de que o projeto arquitetônico era propositalmente ambíguo para que, uma vez não vingada uma universidade, existiria então um hospital. Tenho que admitir que essa teoria é demasiadamente factível. Creio nela de diversas formas. E se um lugar, que é uma universidade, de repente tem ares de hospital, algo aí reside de muito conflituoso esteticamente. Pois bem, Flávia conseguiu tirar poesia da aparente “feiura” uerjiana. Através de sua objetiva, a UERJ não se salva, mas respira e, por isso, humaniza-se, torna-se até poética, harmônica, e com a presença de uma natureza sugestiva e calmante.

O espírito do cotidiano, que é o espírito da memória projetada no futuro no mesmo instante em que tudo acontece, é também o espírito da composição das luzes. O espírito do cotidiano só pode ser percebido se pensamos no agora como produto do passado e como matéria do futuro, e à medida que o movimento cotidiano acontece e é percebido através de distanciamento e indagação, temos que a memória é uma exposição de fotografias cujas imagens são duvidosas, fantasiosas e inexatas tanto quanto as são as fotografias técnicas. Dito isto, tenho plena convicção de que Flávia não apenas captou imagens tecnicamente e artisticamente, como a escolha do tema, o trabalho com a câmera e o acabamento final das fotos foi um trabalho de intensa investigação psicológica dos meandros do cotidiano, da memória e de sua projeção no futuro, do cotidiano dos fantasmas que habitam um hospital feito universidade, cujas vidas necessitariam de um olhar para dentro, de um olhar profundo.

Caros amigos, a paisagem não é o que vemos, mas o que podemos ver. Também não é o que podemos ver, mas o que escolhemos ver. Também não é o que escolhemos ver, é o que podemos ver dentro daquilo que escolhemos ver.  Também é o que imaginamos com os olhos da alma. Também não é nada disto que eu disse, pois, sabe-se lá: e se formos cegos?

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4 comentários sobre “O cotidiano dos fantasmas: a fotografia de Flávia Paradise vê a UERJ

  1. Twitter Rules!
    Não pude assistir às impressas, mas na web ficou muito lindo.
    Beijos

  2. ai adorei, vou chorar.

    valeu Gui. não colocaria melhor em palavras meus próprios sentimentos.

    obrigada pela força. grandes Beijos.

  3. Pingback: minha primeira exposição « hey, mercedes!

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