O incômodo incontornável*

*O sol em O Estrangeiro, de Albert Camus, por Guilherme de Carvalho

Redigir um ensaio cuja proposta é analisar a função do sol em um dos mais extraordinários romances do século XX, tendo como pano de fundo o dia mais quente do ano no Rio de Janeiro, em tempos de aquecimento global, é, no mínimo, assaz irônico. É como se, de repente, a ideia de assassinar alguém por que faz muito calor se tornasse uma premissa razoável, pois a quentura enlouquece, transtorna, nos absurda inteiramente. No entanto, a afirmação padece no terreno do falso quando consideramos que, enquanto Albert Camus publicava suas páginas encharcadas de suor, campos de concentração nazistas e soviéticos liquidavam milhões no frio intraduzível da Europa Central; no leste outros milhões eram entregues à fome. Então, forma-se um impasse: o assassinato cometido por Mersault é justificável, tendo em vista sua condição de confundido pelo sol, ou o ser humano é que possui caráter perverso independente de seu lugar?

Mil novecentos e quarenta e dois. Publica-se “O Estrangeiro”. Altos oficiais da SS nazista discutem a solução final para a questão judaica. Americanos seguem pesquisando e aprimorando uma bomba atômica – serão mil sóis sobre o inimigo. O sol nascerá um milhão de vezes ao mesmo tempo. Mersault mata um árabe. É este o legado do século XX que, com um quinhão do XIX, nos aproximou do verdadeiro inferno. O absurdo, de maneira restrita, é isto: o sol é o incômodo que nos persegue. Somos, também, o incômodo do mundo.

A literatura denuncia todos os aspectos da vida humana que tentamos encobrir, tal qual um chapéu nos dá a sensação de fugirmos do sol. Portanto, é na intenção de tamparmos o sol que nos afastamos da “realidade”, aqui tratada como o nosso incômodo. Seguimos, os homens, na eterna caminhada em direção à livre consciência, o estágio em que, despojados de culpa e aflições, viveríamos ao nada e para nada. Mas o incômodo permanece no romance (como obstáculo) e na vida (como aflição) para lecionar o ensinamento da dor, cuja significação é o próprio sintoma de vida. Camus compreendia que somente um personagem apático, cruel e inteligente como Mersault poderia transmitir a ideia de que a perversidade é inerente aos homens todos e não apenas ao triste burocrata que assassina um mouro ao deparar-se com o incômodo.

Podemos apreender que o sol no romance é o mesmo rochedo a que Sísifo fora condenado a carregar eternamente morro acima. Vale ressaltar que o personagem mitológico, ao contrário de Mersault, não poderia dar por terminado o seu tormento, uma vez que o suicídio é uma dádiva concedida somente aos homens. Contudo, se a decisão da morte é a renúncia ao sofrimento, do qual jamais iremos nos livrar, o incômodo torna-se objeto incontornável, partícula essencial do que podemos chamar uma vez por todas de vida. Afirma Camus em O mito de Sísifo:

Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas paixões como por seu tormento. O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo.

Mas que preço?

Mersault, imerso na rotina de seu trabalho, depara-se com a morte de sua mãe. O primeiro sofrimento que o homem poderia sofrer é justamente o falecimento de sua progenitora, ainda que em sua própria gestação, o que eventualmente causaria a morte do indivíduo. Inicia-se, então, no romance, um ciclo que apresentará um sem-número de incômodos problemas incontornáveis que terminará com o último sofrimento a que qual o homem poderia estar condenado: ter consciência de seu fim próximo.

A questão, porém, é analisar como algo tão essencial para o personagem central da trama torna-se aos poucos objeto insignificante. Não apenas o sol, mas o assassinato como um todo é reduzido a apenas uma reles informação contida em um processo. O que realmente estão sendo julgadas são as atitudes apáticas do réu após o falecimento de sua mãe, o que, para um júri repleto de franceses brancos, eram reações de pura monstruosidade de um homem que fora capaz de assassinar um árabe a sangue frio, com vários disparos desnecessários, coisa que, na história da Europa, sempre fora incogitável, não? De qualquer modo, é perigoso desviar a atenção do crime, porque, mesmo que Mersault não houvesse cometido qualquer crime, tratava-se do julgamento de um possível homicídio, e não acerca da estima moral do réu.

Num jogo de determinantes e determinados, ao longo da obra camusiana pessoas e coisas significam o incômodo e o incomodado, o que, tautologicamente, anula qualquer possibilidade de considerarmos Mersault inocente ou mero produto de sua condição de incomodado – não sendo parte da solução, Mersault também não é parte do problema. Sendo solução, é problema.

O romance O Estrangeiro apresenta a rotina de Mersault e seus percalços não como diagnóstico da vida moderna, mas como sintoma – como remédio, jamais! Não pretende diagnosticar o vazio moral de nossa era, mas antes se apresenta como sintoma da inexistência de uma ética do progresso moral, em detrimento de uma tão renitente ética do atraso moral. O sol, retornemos, é o incômodo incontornável de nossa condição. Talvez uma maneira um tanto pessimista, ou apenas cética, de indicar quão vazio de bondade é o ser humano. Não devemos confundir, contudo, a situação ridícula de Mersault diante do sol e sua esperança de viver o maior tempo possível como sinais de que era apenas um homem bom, mas fadado ao seu cruel destino. Não. Matou porque quis matar. Ao menos, jamais se escondeu num calabouço de culpa, tampouco se arrependeu verdadeiramente. De novo, O mito de Sísifo:

Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não existe sol sem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No mais, ele se tem como senhor de seus dias.

Nossa trajetória biográfica é marcada por tragédias inenarráveis, nossos esforços no amor esbarram no nosso ímpeto sádico, nossa juventude é marcada pela disposição e pela inexperiência, ao passo que nossa velhice caracteriza-se pela derrocada de nossa saúde, logo quando a experiência nos chega. O incômodo incontornável é aquilo que atravessa toda a tradição da literatura ocidental, quiçá mundial: não há como negar a vida, não há como negar o sofrimento; o suicídio é a negação da dor, porém viver é mesmo doloroso. O paradoxo do incômodo incontornável é como o sol na história do Sr. Mersault. Não há como fugir daquilo que nos torna vivos, e que, por isso, nos incomoda. O mesmo sol que o incomoda e que o fez matar um homem é também o sol que trazia luz para os objetos, as plantas, que fazia reluzir o corpo de Marie, enfim, que o trazia sempre para a real dimensão do mundo; realidade esta que é parte do nosso incômodo. Então, voltamos à questão inicial.

Ensaio apresentado na disciplina Teoria da Literatura IV em novembro de 2009.

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Um comentário sobre “O incômodo incontornável*

  1. Ah, bom… Já ia perguntar por que você tinha dito que estava escrevendo isso no dia mais quente do ano, se estamos em setembro… Bonito texto.

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