Travessia*

Nuvem sobre o Largo da Carioca, de Márcia Folleto. (Agência O Globo)

É muito engraçado espiar os defenestradores atirando papéis picados do Edifício Avenida Central sobre o Convento de Santo Antônio no último dia de trabalho do ano. Faz-me lembrar dos tempos em que eu ia com o vovô ao cinema Chronos, onde assisti a “La mer” milhares de vezes, apaixonando-me ao infinito pela belíssima atriz francesa Anne Lavôr, cuja tez branca se assemelhava à bruma que o mar produz em seu eterno movimento para a areia. Os soldados saltavam de paraquedas ao som da Marselhesa e, em preto e branco, seus corpos eram como papéis picados ao ar. Não sei se digo isso por que o cinema fechou e no lugar puseram uma boate de frente para o convento, e o Largo da Carioca parece agora um lugar carente de sentido. Estou cansado, ou velho, ou os dois, e tenho a sensação de que já escrevi esse conto antes, para o mesmo jornal, há quarenta anos.

Alguém me esbarra, olho para a cara do sujeito e a espécie de rubor que ele se provoca me causa alarme. Devo estar andando muito devagar, numa trajetória torta, destoante dos outros, porque incomodo feito britadeira no Municipal. Percebo que não passo por aqui desde quando eu tinha espinhas na testa e não havia o buraco do metrô. E com o metrô vieram as pessoas, foram embora os antigos prédios, o cinema Chronos e o pipoqueiro seu Clemente, do qual nem se ouve mais falar. Agora, o pipoqueiro é outro, cuja pipoca mais parece plástico, somado a um pó amarelo que ele põe nos grãos de milho para ornar o sabor. O vozerio é muito, as propagandas várias, creio estar dentro de uma tevê, entre um canal e outro, porque meu coração chuvisca.

Da última vez em que estive aqui, ia num camburão, e do relógio de quatro faces que padece no centro do largo há um século, só vi a hora: fui para o pau sem os minutos há trinta e sete anos. Taxado de comunista, sumi no mapa. Peguei o primeiro voo-cortesia do Rio de Janeiro para a Argélia com uma gente muito esquisita, depois para o Egito; fui amigo de ditadores. Voei para Roma, engordei vinte quilos, fui de trem para Berlim, de lá a Paris, e fui vender jornal. Certa manhã, abri um deles e li uma reportagem de capa sobre a teoria da relatividade e toda a história da dilatação do espaço-tempo: percebi que no Rio de Janeiro já era setenta e nove. Não sei se digo isso por que a ditadura acabou e no lugar puseram uma democracia de costas para o porão, e a república parece agora um lugar carente de sentido. Como sem sentido as pessoas caminham, me cruzam, me ignoram, me desdenham, me anulam. Já, já, me darei por vencido, no entanto continuo em meu caminho.

Eis então que me vejo, a mim mesmo, andando pelo Largo da Carioca, vindo em minha direção. Eu me cruzo, tenho vinte anos, duas espinhas na testa e um óculos torto. Que horas são? – me pergunto. Não tenho relógio, respondo a mim, e imediatamente penso em sacar o revólver cabo madrepérola detrás da calça e enfiar uma bala nos miolos, nos meus ou nos do meu espectro, dada a natureza do que vejo – mas não há pressa – os ponteiros sabem para onde apontam. Não posso fenecer se ainda não sei se estou vivo, portanto continuo em meu caminho, a olhar e a ouvir minha cidade barulhenta.

Puxa-me a calça um menino menor que minha bengala. Paro. Sou eu, indo com meu avô assistir aos filmes de guerra do cinema Chronos, há mais de meio século. Posso me recordar perfeitamente do conjuntinho em que estou vestido, logo aquele que eu tanto amava usar. O guri me olha com compaixão, pois sabe de tudo, do vir-a-ser. Menino, eu me entrego a mim, velho, um jornal pesado, cujas palavras eu conheço de cor. E lá está o meu conto para o concurso do jornal, escrito há quarenta anos. Releio-o intacto, agora com dificuldade, sob lentes bifocais. Eu, moleque, logo me despeço de mim dizendo, com um piscar brejeiro: as melhores fotografias estão de cabeça para baixo, em enigma. Ao folhear o suplemento literário, minhas palavras e as de meus pares bailam, de fato, sob uma foto. Giro, desconfiado, cento e oitenta graus a gazeta enorme em meio à multidão que, de relance, só pode me avaliar louco. E a fotografia, invertida, é justo onde estou: sobre uma poça d’água, no Largo da Carioca, porém com uma espuma a se alastrar pela poça – como água branca a beijar a água diáfana. Sinto o meu vazio mil vezes dentro de mim, como se tivesse sido mil vezes mais vasto eu mesmo. Olhando para a fotografia ao contrário, tenho o meu passado nas mãos, e já posso morrer. Mas não antes de sentir subitamente em meus pés, inertes sobre a poça d’água que reflete o relógio de quatro faces e o Convento de Santo Antônio, a bruma algodoada de uma ressaca marítima que se avizinhou estranha, ao jornal e a mim. É Anne Lavôr, a atriz que amei menino, quem me assalta os pés tantos anos depois com suas mãos de pianista.

*Conto que enviei ao concurso literário “Contos do Rio”, do Jornal O Globo, cujo tema, este ano, era uma fotografia, que ora coloco aqui. Não fui selecionado, infelizmente…

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Um comentário sobre “Travessia*

  1. Poxa… pelo menos você pôde concorrer… eu queria tanto, tanto participar desse concurso, mas só era pra maiores de 18… enfim, ano que vem eu concorro… ou não né…

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