As mulheres e o amor da adolescência

Devo explicar por que me acho gauche na vida. Já repararam que as casas sempre espiam os homens que correm atrás de mulheres? Já repararam que a tarde nunca será azul, pois há sempre muitos desejos? Que o bonde passa cheio de pernas, levando consigo aqueles sonhos passantes, voláteis, impossíveis? Pernas brancas, pretas, amarelas, pernas várias, arrancando o nosso coração dos olhos… Sabem, eu nunca, nunca nesta vida, tirei a virgindade de uma mulher. Este é um dado curioso de alguém que amou, foi amado, ouviu muitos elogios e alguns disparates. E eu muito vi. Esforcei.

Eu era o menino torto que escrevia poemas no fundo da sala. O sonho de toda sogra, porém fraco e pequeno. Nunca me meti em brigas, não cheirava mal, não jogava bola, nem videogame, nem andava de skate, nem nunca tive uma lambreta modelo anos 2000. Não conheço bandas de rock, não entendo de desenhos animados violentos, nunca abri a cabeça, nunca quebrei o braço, não forniquei com a amiguinha da 8° série e não namorei a mais gostosa do colégio. Não pichei muros, não comprei cartões de memória nem celulares no mercado negro. Não fui a jogos de futebol e jamais mulher nenhuma disse que era apaixonada por mim e que, portanto, era para eu me apaixonar por ela também.  Nunca frequentei academia, nunca tomei anabolizantes e nunca fiz uma tatuagem. Eu era, e sou, o menino torto que escrevia poemas no fundo da sala. Sempre hei de ser isto: torto e poeta.

A minha maior mágoa na vida foi não ter sido o amor de alguém na adolescência. Começar a namorar ainda no colégio, na sala de aula, e aquilo se tornar um verdadeiro inferno (é preciso que tenha se tornado um inferno): a primeira transa para os dois, famílias dos dois lados, uma vida a conhecer juntos, o “eu te amo para sempre”, mil brigas, pegas-pra-capás e tudo o mais. Terminar e voltar um zilhão de vezes, sempre com muita dor, apenas para se tornar um fantasma na vida daquela jovem mulher que acabara de entrar na faculdade; daqueles que ela chora no banho e pensa: foi o canalha que mais amei.

Será que as mulheres pensam neles para sempre? Será que ainda ligam, ouvem o “alô” e desligam? Até que ponto vocês lembram deles? Ainda os escrevem no diário? Que tipo de sentimento há, no coração de uma mulher, reservado a eles? Vocês os perdoam, os amam, os odeiam? São perguntas que sempre faço, cá comigo. Eu não sei, porque nunca fui um deles, e o tempo já passou. Só dá tempo, agora, de ser o canalha do pai dos filhos de alguma. Mas sou torto demais até para isto, ainda hoje. Eu sou daqueles a quem a vida só deu uma virtude: ser fraco. Sou fraco para tudo, sou ingênuo e sou triste. Bonito, até sou, mas sem nenhuma cicatriz na cara; não tenho pele de elefante e cara de boi-brabo. Sou daqueles que apanha, por dentro e por fora. E não falo isso com autopiedade, falo até com certo orgulho em desvio. Acostumei-me a ser o macho-zeta.

Nunca tirei a virgindade de uma mulher. Vejam, é capaz de ocorrer de’u escrever um poema e alguém usá-lo para tal finalidade, porém eu, eu mesmo, nunca, nunquinha. Durante os anos cruciais em que isto costuma ocorrer, não prolonguei nenhum namoro, propositalmente, só para ver um lençol manchado de sangue e um rosto coberto de lágrimas. Há algo de misterioso no primeiro amor, algo que não pode ser expresso em palavras, que eu nunca irei saber, e é por isso que, irresponsavelmente, imagino, blefo.

Sonho em ter uma filha, filha mulher. Tudo na minha vida caminhou para que eu me cercasse delas sempre, entendê-las, ouvi-las. Sou um eterno interessado pela mente feminina e não acho que elas são absolutamente incompreensíveis; acredito, sim, como Chico Buarque, que há uma zona de mistério intransponível onde as decisões acontecem. Elas são lindas. Ah, e terei uma filha mulher, e serei amigo dela, e guardarei essa presença de secar suas lágrimas só para vê-la crescer de perto, para que ela me conte que se apaixonou por um canalha, deu para ele e se arrependeu. Talvez, quem sabe, será o dia em que eu compreenderei o que, até agora, não compreendi. Porque, sabes, sou torto, poeta, chato demais, monótono demais. Entretanto, eu não queria mesmo ser aquele cara, coadjuvante, que aparece no início do filme de qualquer mulher; aquele que é apenas um fotograma trepidante na memória. Este, eu também nunca quereria ser… Mais vale ser o último amor, faltando apenas dois minutos para a morte, do que o primeiro, a décadas e décadas a vir da vida.

Mundo, mundo, vasto mundo,  se eu me chamasse Raimundo,  seria uma rima, não seria uma solução. Mundo, mundo, vasto mundo,  mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer, mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo.

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3 comentários sobre “As mulheres e o amor da adolescência

  1. Opa! Não passaria despercebido? Que gentil de sua parte.
    E… Qualquer dia eu as entendo. rs

    Beijos!

  2. Com toda certeza , se você fosse da minha sala, não passaria despercebido. E mesmo de um jeito ou de outro seria meu companheiro de escritas monótonas e que parece sem fundamento. Que alguns acham de difícil compreensão. Mulheres não são um mistério, tem sim seu lado de mistério , mas com os anos desvendará . Boa Sorte !

  3. Olá, li teu texto, clro… obviamente!
    mas enfim, o encaixe com o poema de sete faces de Drumond foi brilhante. é só isso mesmo que tenho a dizer.

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