Por que e quando fui feliz

Alguns amigos novos me perguntam por que fui feliz com amigos velhos. É difícil explicar. Eu mesmo penso muito nisso, recorro à memória e ainda assim os fatos parecem que não existiram, ou coisa parecida. A verdade é que, embora não tenha sido há muitos anos, era outro tempo, uma outra gente. Éramos outros. Outros que, creio, jamais haveremos de ser novamente.

Não faz muito tempo, bebíamos caipirinha ruim e ríamos de coisas inúteis. Os amores eram breves, mas infinitos, e os beijos tinham propósito nenhum. Andávamos do Aterro ao Leblon de madrugada, bebendo cerveja quente e mijando nos jardins como cachorros. Nada nos acontecia. Fumávamos cigarros aromáticos aos montes e o nosso fôlego não se alterava. Dava para jogar futebol na praia o dia inteiro, só parando para comer um ou outro pão com mortadela que eventualmente furtávamos da padaria só pelo prazer de correr risco; nós não éramos pobres. Fumar maconha era só para rir, só uma distração, não era um problema, não era um hábito. Trocávamos entre nós de namoradas e era divertido, não tinha uma conotação de disputa, nós mal conhecíamos o ciúme, e sinto que a palavra falada tinha mais validade naquele tempo. Conversávamos muito sobre tudo e não havia hora para o papo acabar; não sei como, mas o dinheiro também rendia muito, dava para passar um final de semana estúpido com cinquenta reais, mesmo fumando cigarro e bebendo do jeito que a gente bebia. Descobriríamos mais tarde, também, que o colégio fora a melhor época, a mais divertida e a mais fértil em tudo, e que a universidade, no fundo, é chata. Porque a gente transa com interesse, bebe comedido, estuda com classe, dança com exatidão e, vá lá, o nosso pulmão já está assim avariado de tanto tabaco. Mas, naquele tempo, não, naquele tempo íamos ao Santa Marta, ao Salgueiro, ao Tuiti dançar funk e nos achávamos os maiores favelados da terra. A gente era branco, mas tinha avidez por ser preto. A gente queria morar na favela porque a cerveja era barata, o baseado era farto, pipa adoidado e churrasco toda semana; éramos, no fundo, hipócritas, mas inocentes. A gente se contentava com pouco, e éramos, a nosso modo, muito felizes. Tínhamos a cidade mais bela do mundo nas nossas mãos e era exatamente isso que importava. Nunca nos apeteceu as boates, as dondocas, os playboys, os carros, as motos, as roupas. Gostávamos mesmo era do pão com mortadela, da cerveja de boteco, miojo coletivo, de virar a noite falando besteira e de nos apaixonar, nos apaixonar muito. Até que um dia, um a um, fomos crescendo, amadurecendo, e nos tornamos as pessoas mais estúpidas que conheceríamos. Envelhecer é desistir.

O vestibular derrubou alguns, mas as festas de formatura nos deram sobrevida. Ainda dava tempo de queimar o último, encher a cara até vomitar e transar com a melhor amiga no banheiro, só por divertimento e cumplicidade. Os que foram para a universidade, ou tornaram-se sisudos, ou fizeram novos amigos de farra. Amigos de diretório ou de chopada, o que dá no mesmo, com quem podem fumar inúmeros baseados reclamando do imperialismo das potências capitalistas. Outros começaram a ser escravizados por lojas enfiadas dentro de shoppings, e, gradativamente, tornaram-se mesquinhos, arrogantes e figurinhas conhecidas nas melhores boates da cidade. Alguns se casaram,  ou tiveram filhos, ou passaram a sustentar os pais, ou coisa que o valha. Outros, como eu, vagabundeiam até hoje e ganham pouco, muito pouco, porque são idealistas preguiçosos, e resistem na cervejinha barata, porém um tanto sozinhos. De verdade, eu não sei o que aconteceu. Demorarei até compreender por que tudo aquilo passou, por que nos tornamos chatos, por que nos afastamos e, deus, por que estamos levando a vida tão a sério.

Sinto saudade desse tempo não tão remoto. Sinto como se a vida fosse realmente burra e tendesse sempre para a infelicidade. Pois, podem dizer de mim o que quiserem, mas já notaram como entrar num banco é constrangedor? Já notaram o quanto é incômodo falar de trabalho? Que a gente não lê mais o que gosta e que você tem um plano  determinado para os próximos três finais de semana? Dinheiro é um mal necessário? Sim, sim, mas eu ganho cada dia mais, gasto cada dia mais e sou feliz cada dia menos…

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8 comentários sobre “Por que e quando fui feliz

  1. Concordo com o comentário do Rafael. Todos já viveram, ou quase viveram o que você descreveu. Não da mesma forma, é claro, mas os momentos, a ingenuidade, a hipocrisia disfarçada e inocente. Não sei se estou certo, mas sempre penso que a idade nos tira a inocência do não-saber. A faculdade só reforça essa ideia. Por mais que as novas amizades sejam ótimas, ainda assim não é a mesma coisa. Tornamo-nos mais críticos com relação a tudo, inclusive a nós mesmos. Crescer é difícil e constrangedor. É fato.
    Assim como você, sou nostálgico, pois sei que naquele tempo a vida era mais simples.

  2. Excelente! Mas não posso ler de novo se não desisto de tudo…

    Abraços

  3. Cara acho que todos que viveram o que você escveu aqui deveria ler, muitos trechos me lembraram o “nossa onda” da ainda recente juventude. Porra o que você escreveu aqui é bem inspirador. Já tentou você ,mandar alguns textos para cadernos jovens dos jornais do Brasil?! Você tem um talento muita bom com as palavras! Parabéns.

    Att,

    Seu amigo de outrora Rafael ( rsrs o outrora foi pra tentar chegar ao nível da sua intelectualidade uhsushsuh)

  4. Pior que é verdade… Ninguém pode ser feliz, apenas estar feliz. Tens razão!

  5. Engraçado q essa semana tive uma conversa com uma amiga sobre nostalgia. Falamos que existem pessoas nostálgicas demais e vc, sim, é uma dessas pessoas.
    Talvez pelo fato de vc ser nostálgico demais o texto soe como sofrido, entende?
    Pq ser feliz? Não, é estar feliz! E vc já concordou comigo, um dia, sobre isso.

  6. Não acho. Pode ser uma redenção. Ler o texto, sofrer um pouco e logo esquecer. Porque a gente esquece de tudo…

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