Memórias do Pedro II, parte I

A primeira vez que eu entrei no Colégio Pedro II (talvez o fotograma registre uma foto embaralhada, posta na data errada) fazia muito calor. Pode ser qualquer dia do ano de 2005; pode ser que, na pior das hipóteses, e nem quero pensar nela, eu nunca tenha estudado lá, porque, numa das abordagens que faço das lembranças, tudo aquilo parece ser um filme rápido, trepidante e fugaz, curto e fluido: num segundo, entro no colégio, no outro, vou embora. É tudo muito doloroso para mim. Mas seguirei em frente, prendendo uma lágrima ou outra que, invariavelmente, cairá nas frases sem pausa.

A primeira vez que eu entrei no Pedro II, pensei que tinha retornado ao estágio inicial da vida escolar: um colégio com muitos gritos de crianças e árvores enormes e amargas só pode ser sinal de que você está prestes a aprender a ler. Mas não. Lá não se ensina a ler, é um colégio para sabidos, diferente dos outros colégios. Ah, e devo especificar que estudei na unidade São Cristóvão, o que dá diferenças políticas e climáticas. É muito quente, muito úmido, porém ao mesmo tempo muito agradável.

O colégio tem aquele espírito um tanto anos 1950 que a gente vê em determinados videoclipes. Meninas de saiotes correndo para lá e para cá ao som de um rock “babulina”, entrando em lanchonetes cujos banquinhos são aqueles redondos, de rodar, junto ao balcão. Jukebox, Elvis Presley, aquela coisa toda… Estudar no Pedro II é viajar para tempo nenhum; um tempo diverso, talvez. Se não há como traduzir as lembranças em si, vale ao menos a tentativa de divagar sobre os sentimentos que nos assaltam sempre. É mesmo difícil ser ex-aluno do Colégio Pedro II. Eu mesmo sei que, estando em Londres, Macau ou Bora Bora, eu ainda estarei lá, naquele pátio, entre os pombos.

No fundo, nós, ex-alunos do Pedro II, fingimos, disfarçamos a saudade. Cantamos “tabuada” mentindo um sentimento de felicidade, porque no fundo o que nós somos é tristes. O tempo é o pior inimigo do aluno do Pedro II, porque ele não consegue enxergar o futuro; todas a sua vida é reflexo de suas experiências lá dentro. Você, leitor, que clicou na palavra “tabuada” e se arrepiou, lacrimejou, pois saiba que você é um nostálgico, um triste, um desesperado. Ah, mas não deve ser assim, não deve ser assim. A cerveja ainda continua gelada nos bares, os seus colegas todos se formaram, casaram, têm filhos, a vida seguiu seu rumo. Você não pode ficar aí pensando naquele seu colega por quem você era apaixonada e se casou, você não pode mais lembrar das besteiras que disse, das aulas que matou. É, caro leitor, nessas horas o ar fica denso, a memória lança fotos amareladas, e aquele cheiro, aquele cheiro de mogno da biblioteca, e aquele vento fresco do pátio, e como você decorou que horas eram pela posição da sombra das pilastras, e a umidade das paredes, as infiltrações, aquele campeonato de sueca que você venceu, e a cachaça com coca-cola que você bebeu dentro do banheiro… Ah, essas coisas doem, eu sei, essas coisas todas doem muito.

Acredito que o Colégio Pedro II guarda em si o mistério de um Brasil. Dentro do Colégio Pedro II não há Constituição, não é o Brasil. Explico: creio que o nosso barbudo imperador tem uma varinha mágica, feito no filme “Fantasia”, clássico de Walt Disney, e com ela ele passa a eternidade animando as pessoas e as coisas dentro do colégio, animando-as para a alegria, para a revolta, para a juventude. Não, não é verdade. É tão-somente mais uma teoria tentando explicar o que há de diferente no Colégio Pedro II. Gosto de pensar nisso. Passarei a vida pensando nisso. Sou um obstinado.

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8 comentários sobre “Memórias do Pedro II, parte I

  1. Parabéns, Guilherme, fico feliz que tenha expressado desta forma a paixão que representa ser ex-aluno do Pedro II. Minhas esperanças são renovadas quando vejo que a sua geração (embora não demonstre tanto) ainda guarda no coração o carinho e o respeito por esta casa que nos acolheu por um curto – mas marcante – pedaço de nossas vidas.
    Grande abraço!

  2. Você disse bem quando afirma que eu tentei. Sim, eu tentei, mas é difícil explicar o sentimento.
    Quanto comparar-me a Nelson Rodrigues… Não sei se fico lisonjeado ou achando que você é louca.
    Mas obrigado! rs

    Beijos

  3. É tudo isso aí e um pouco mais ! Sou ex-aluna e o sentimento ainda
    arde aqui dentro. Você soube explicar,tentar explicar o que ser do Pedro II,
    qual é o seu diferencial tão bem, que pode-se comparar ao Nelson Rodrigues. Brilhante,adorei .

  4. Texto muito interessante,parabéns !Realmente expressa o que um ex-aluno sente !
    Só quem estudou nessa instituição é que sabe o que isso significa !
    Acho que todos nós(ex-alunos do CPII) devem possuir essa tristeza interior,não sei muito bem explicar,mas sei que sinto isso !
    O engraçado é que quando ainda somos alunos,reclamamos de ter que vestir aquela roupa imprópria ao calor do Rio de Janeiro,em ter que acordar aos sábados bem cedo para ir estudar,de perder o final de semana se dedicando a estudar ao ensino puxado que temos,entre outros fatores.Quando você vira ex-aluno,acaba sentindo saudade até dessas pequenas coisas. Hoje,quando passo em frente a unidade que eu estudei e na condução ,escuto alguém falar do colégio,a vontade que me dar é virar e dizer:
    Eu estudei ali!
    Não adianta,acho que nao sei como seria se não tivesse la estudado !
    Tenho muito orgulho disso !

  5. É – na falta de palavra melhor – reconfortante saber que o trauma de ser ex-aluna não abalou só a mim.
    Sofri com o fingimento dos meus amigos, com a suposta saudade saudável deles, enquanto eu empaquei numa dor que não se exorcizava.
    Quando vejo alguém com aquele uniforme, sorrio, e me seguro para não ser uma daquelas pessoas que abordam, que outrora achava estranhas.
    Virei a maior propagandista do Colégio Pedro II, meus filhos serão pedristas.

    Lindo texto, obrigada :’)

  6. Confesso que dou um sorrisinho sempre que vejo alguém passando na rua com o uniforme do nosso colégio. E me encho de orgulho de ver meu irmão colocar o dele todos os dias e ir pra lá.
    Cada vez que passo por São Cristóvão, olho aquelas ruas tão conhecidas e dá uma saudade…
    Entrei no Pedro II com 12 anos, saí de lá com 18 e não há como negar que ele mais do que fazer parte da minha vida, ele foi minha vida durante esse tempo. E, sem dúvidas, dói lembrar disso e não poder voltar.
    Seu texto é lindo, meu bem. Mais que isso, é a voz de todos nós que passamos por lá.

  7. Meu caro Guilherme ler seus textos me causa uma certa nostalgia! Ocorre que quando voce fala de Los Hermanos eu lembro daqueles tempos que falávamos ontem, os tempos do Leblon! “se as paredes do Leblon falassem!” Acredito que elas não falariam, cantariam das mais belas músicas do nosso amado Chico, é claro muitas dos nossos Hermanos e chegariam a tocar os funks daquela época!
    Ao falar do CPII bate aquela saudade… Apesar de termos estudado em unidades diferentes, em épocas diferentes, o amor e tudo que sentimos por essa instituição é muiiiiito parecido! Como é parecido para quase todos os alunos/ex-alunos do CPII.
    Bom meu caro, eu fico até um pouco acoado ao escrever pra você devido ao seu domínio sobre a nossa língua! Enquanto eu ainda continuo fugindo das, para mim, terríveis aulas de português! Enfim, meus parabéns por mais um belo texto!

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