Memórias do Pedro II, parte II

Muita gente que conheço deve estar apreensiva, esperando que eu conte aqui antigas fofocas, antigos causos que ficaram lá atrás. Acreditem, essa é a minha mais profunda intenção; eu queria mesmo fazer isso. Mas tudo ainda está muito fresco, muito vivo; muitos episódios que eu iria citar aqui ainda nem concluiram seu ciclo; muitas pessoas já estão casadas ou para casar, com filhos, com novos namorados, algumas mudaram de opção sexual, de cidade ou de país, ou seja, seria muito, muito embaraçoso para mim.

Lembro-me claramente que, no meu primeiro ano no Pedro II, eu ia para o colégio com a letra de “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil, no bolso da camisa. Já naquela época, depois de um breve episódio complicado, eu me sentia um pouco acuado. Então todos os dias eu tirava aquela letra manuscrita por mim do bolso e lia e a cantava como um mantra, como uma oração. Chegava todos os dias para alcançar os alunos do turno da manhã ainda dentro da unidade, sentava em qualquer banco e lia: “Pai, afasta de mim esse cálice”, com toda a certeza de que aqueles tempos sombrios iriam passar. Eu me calei por um breve tempo. Corri riscos. E os tempos sombrios passaram. Senti-me o Chico Buarque de São Cristóvão, embora a única alcunha que me sobrou foi a de “psicopata”. Que se há de fazer?

As tardes são muito cruéis em qualquer lugar do Rio de Janeiro. Se calor, as sombras das árvores ganham ares de conforto e acolhimento; é muito gostoso parar e ficar debaixo de uma, entre os 14 e os 18 anos, esperando a vida passar junto dos amigos ou da jovem amada. Se frio, impossível não admirar a temeridade das nuvens, vê-las andando negras  pelo céu, entre o peso daquele infinito prestes a desabar. Venta, venta, é frio, venta, venta, as folhas  secas fazem aquele chic-chic no chão, venta e chove. Agora, passe estas tardes no Colégio Pedro II, e, vá lá, lembre-se delas, e então você terá a certeza de que, sim, as tardes são muito cruéis. As tardes são insuportáveis para a memória, porque as tardes são vazias sempre. As tardes não conseguem ter fatos. Por isso minhas memórias do Pedro II são apenas divagações sem sentido algum, pelo menos para mim.

Certa manhã, ao chegar mais cedo para alcançar o turno da manhã e suas pessoas, com minha letra de “Cálice” no bolso da camisa, atrás do emblema de uma estrela, percebi que acordava cedo só para ver a coisa mais linda que veria na vida. Eu tinha certeza que nunca mais veria nada mais bonito. Todos os dias, eu acordava muito mais cedo do que precisava, pegava dois ônibus e ia para lá, só para admirar tamanha beleza. Imerso naquilo, dei a viver de sonhos, dei para viver com o coração palpitado, pronto para explodir, dei para decorar poemas, dormir mal, dei para querer muito mais de mim. Eu namorava-a sem poder levá-la para casa, sem poder tirá-la de lá, e para mim era duro tê-la todos os dias apenas um pouco, e, por isso, pouco a pouco eu fui me perdendo de mim. Como toda paixão, eu mantive esperanças de um dia roubá-la para mim, de surrupiá-la inteira daquele colégio que eu amava, mas como um entrave. Dentro dela, escrevi inteirinho um livro, por passar horas e horas pensando dentro dela, amando-a, admirando-a, desejando-a. Nunca mais, depois desta paixão, eu seria o mesmo. Por ela, decidi ser escritor, por amá-la com os olhos.

Era a biblioteca. Ela ficava no fundo do pátio, possuía portas de vidro e funcionárias muito mal humoradas.  Era vasta, fresca, úmida e possuía uma ala cujo acesso era vetado aos alunos. Ainda sonho com o dia que entrarei nessa ala e descobrirei caminhos secretos, quiçá documentos históricos do século XVII. De lá, vem meu gosto de escrever, e essa nostalgia que me assalta a alma sempre. É da minha paixão pela literatura de ficção que vem esse meu gosto de sonhar e de mentir. Vês? É tudo mentira…

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2 comentários sobre “Memórias do Pedro II, parte II

  1. Mais do que encantada, Guilherme, fui lendo seu texto e constatando que o amor pelo Colégio Pedro II é o mesmo e percorre com a mesma força e frescor décadas desde o século passado. Ah! Só esse nosso CPII tem a característica — única — de fazer com que se continue descobrindo “amigos do colégio” mesmo que já tenham transcorridos mais de 50 anos desde que usamos aquele uniforme pela última vez. Maravilhoso, isso. Como também maravilhoso é o modo de você nos trazer suas lembranças. Não importa em que seção/unidade/campi se tenha estudado, nos descobrimos caminhando e sentindo como nossa a sua emoção, porque a gente vai, simplesmente, se reconhecendo. Parabéns! Uma coisa mais: um grupo de ex-alunos que vem, desde 2002, corajosamente publicando o livro “Ao Pedro II, Tudo ou Nada? — Memórias do Cotidiano no CPII”, já está cuidando de seu Volume 4. São relatos de todas as épocas e de todas as seções/unidades/campi. Temos histórias desde a década de 30 e 40 até as desse século. Gostaríamos muito de contar também com texto seu. Torcemos para que se interesse, e nosso e-mail específico para isso é mirian.volume4@gmail.com. Gracias!

  2. Poucos conseguiriam falar do Pedro II mesclando tanta poesia e as imagens mais dessacralizadas que aquele local pode ter, como os pombos (eu ri nessa parte!).
    Só não digo que resumiu com maestria essa fase inesquecível de nossas vidas, porque isso seria impossível. Estudar no Pedro II é uma experiência ímpar e inenarrável.
    E não tinha dia melhor para eu ler essa lindíssima homenagem. Tarde cinza, que lembra a chuva caindo na pista de corrida e a corrente gelada atravessando os corredores da unidade São Cristóvão.
    Resta-nos contar os dias para a feijoada dos ex-alunos. Para rever os amigos e nosso saudoso colégio. Nem que seja para cantar a tabuada mais uma vez (como se não cantássemos em aniversários e quaisquer outros eventos).
    Tristeza e nostalgia que quase passam despercebidas ao som de “Pedro II, PORRA” – irreverência típica pedrosegundiana.

    Parabéns pelo texto, Guilherme!

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