“Terrorismo do frívolo”, por Ronaldo Brito*

O grande impacto da palavra de Hölderlin ocorre nas primeiras décadas do século XX, ainda sob o pathos da alta espiritualidade. Manifesta, então, uma dor incurável: a impossibilidade de a civilização ocidental sustentar um destino histórico poético à altura das expectativas românticas, pós-iluministas. E já o fazia sob o signo do desencanto, senão do sóbrio desespero. A sentença de Hölderlin atribuía ao homem moderno uma condição inexorável: ele era o Tardio, o que chegara tarde demais para os deuses. Como se sabe, essa sentença tornou-se quase palavra de ordem, a orientação dominante para o enormemente influente Dasein de Martin Heidegger. De um modo geral, ela assinalava o estado de perplexidade do pensamento ocidental, a sua incapacidade de chegar a termo com a brutal emergência da sociedade de massas. Não vejo como retomar hoje em dia, em termos literais, essa compreensão historial da palavra de Hölderlin. O seu próprio tom, entre o cândido e o catastrófico, já soa distante. Talvez exatamente porque sob vários aspectos a profecia do poeta tenha se consumado: nada escapa à voracidade recreativa pós-moderna, à conspiração aberta contra o valor intrínseco do poético. Como tudo o mais, também ele há de ser entretenimento ou protesto de utilidade pública. Por essa voracidade, nos vemos todos arrastados, céleres, presumivelmente em direção a coisa alguma. Repor seriamente a questão me parece envolver, de saída, a coragem de reconhecer a miséria espiritual das democracias liberais contemporâneas. O que, por sua vez, implica livrarmo-nos desde logo de nostalgias e profecias. E a tarefa, para nós brasileiros, fica mais tortuosa: como não nos deixa esquecer o próprio e quase sempre banal noticiário político; não vivemos de fato numa democracia liberal, longe disso. Nossa fala sobre democracia, em conseqüência, se confunde com uma ânsia de utopia. O que, por certo, não é nada realista e talvez nem seja muito democrático porque já entendemos democracia segundo nossos desejos e nossas esperanças. É claro, para levar a cabo essa discussão, aposto numa premissa. A de que arte e poesia detenham uma materialidade histórica e social considerável, sejam fatores constitutivos dos tempos modernos. Não creio que possamos dispensá-las sem que uma parte de nós vá embora junto.

Um crítico literário muito inteligente e corajoso que só vim a conhecer mais a fundo por agora, tardiamente, George Steiner, defende há décadas uma tese recorrente: a de que, ao final da Metafísica da Criação, dentro da estrita imanência do mundo da vida nas democracias contemporâneas, corresponde o ocaso da era da grande arte ocidental. Esta viria a ser, afinal, o sucedâneo laico da transcendência judaico-cristã. O que movia, secreta mas irreprimivelmente, o tantas vezes fanático movimento pessoal da realização da Obra era um ideal de permanência e uma ânsia de imortalidade que só podem parecer suspeitos, senão risíveis, à mentalidade dominante. O notório ceticismo, a revolta e a ironia do Eu lírico moderno diante da tradição metafísica traíam, pois, para além de uma competição ontológica, uma continuidade histórica: a necessidade de um horizonte de transcendência que justificasse e redimisse a finitude da vida. Já a vida rica hoje, pelo visto, sonha em comprar a morte, transformá-la em mercadoria. Sei, sei bem que essa vida rica é numericamente ínfima, ainda assim é maioria, se me entendem. Nesse sentido, fatalmente, George Steiner elege a obra de Samuel Beckett o grandioso epílogo da arte moderna. Reluto, todo o meu ser reluta, em aceitar essa tese, sob inúmeros aspectos tão plausível e convincente. A essa altura um venerando erudito, admirável pela independência, George Steiner é o típico intelectual judeu cosmopolita da antiga, que chega a Borges e Beckett – e até a Anselm Kiefer! – depois de muito hebraico, grego e latim, depois de muito Homero, Dante e Shakespeare.

Comparativamente, a minha é uma formação quase pop, movida sobretudo pela arte e pela poesia modernas, pela energia do jazz e pelos desafios da filosofia. E, no entanto, esse percurso mediano não deixa de evocar uma autêntica (e talvez arcaica) Bildung em meio ao difuso e antivalorativo universo da informação. De fato, in-formativo, na medida em que parece dispensar as tribulações, as dúvidas e os conflitos inerentes ao tempo de formação pessoal. De repente, descubro-me assim entre dois mundos.

Implacável, Steiner lista entre as utopias, junto com o marxismo e tantas outras, até mesmo o ideário democrata de Thomas Jefferson e sua crença numa aristocracia natural. Para ele, existe um denominador comum, um dado indiscutível: uma humanidade média irremediavelmente antireflexiva e, pior, anti-artística. Sequer anti, na verdade, apenas soberanamente indiferente. O que nem de longe desanima o nosso infatigável autor, diga-se. Basta lê-lo para constatar a sua verve crítica. À drástica questão “Para que poetas em tempos indigentes”, imagino, ele responderia com bom senso humanista. A miséria espiritual das democracias de massa talvez seja inevitável; em todo caso, é mil vezes preferível a um só dia de nazismo ou stalinismo. Uma funesta conjuntura histórica assassinou Ossip Mandelstam, o grande poeta de língua russa; a nossa desenxabida conjuntura por certo jamais o faria, tampouco seria capaz de produzi-lo.

Reluto, repito, em aceitar o verossímil veredicto. E não por amor a utopias, que sempre considerei a outra face do status quo, quase a antítese do pensamento crítico, que começa necessariamente com o que existe. Reluto, hesito, justo em respeito ao meu embate poético e crítico com um material artístico presente e atual, e que inclui naturalmente um quantum de passado vivo. Muita coisa, enfim, que me anima o dia-a-dia e autoriza expectativas e que talvez escape aos parâmetros eruditos de Steiner e, com toda certeza, escapa aos sofismas populistas de um pós-moderno que, com poucos anos de vida, já anda meio decrépito.

Em princípio, seria ilícito recorrer a exemplos: exemplos não são argumentos. E, no entanto, há uma certa verdade inescapável no juízo de gosto kantiano: refratário ao conceito, ele se justifica inteiro pelo exemplo. E isso se aplica mesmo à contra-obra de Marcel Duchamp, justo aquela que, historicamente, anuncia o limite do juízo de gosto. Também ela propõe uma espécie de presença artística inviolável pelo verbo, uma presença que confina com a ausência. O célebre silêncio de Duchamp desafia a caudalosa fala cultural, é um lance a mais de uma lógica poética que já se irreconhece no dualismo caduco sujeito-mundo. Fim do gesto demiúrgico, o ready-made tampouco se resume a um gesto de sociologia crítica – ele é o índice fragmentário de um sujeito poético que busca se reengendrar no mundo administrado pela economia política.

Finalmente, há que dizê-lo de maneira frontal, sob o risco de incorrer em platitudes ou arcaísmos: Ticiano e Velazquez continuam, para mim, presenças vivas, tomam parte no curso simbólico do mundo. Neles experimentamos um pouco do que somos, acompanhamos um processo simbólico que constitui nossa identidade. Cada um faz seus achados um pouco segundo os acasos do destino, é claro. Mas existem diálogos potenciais, em aberto, por assim dizer eminentemente públicos e contemporâneos, entre Velazquez e Manet, Duchamp e Warhol, Brancusi e Richard Serra, citando apenas alguns que estão ao alcance da minha área de competência crítica e somente para relembrar que inexiste o Real sem a sua sombra histórica.

De um determinado ponto de vista, George Steiner está coberto de razão: não há multidão em museu que me convença da expansão da experiência pessoal da arte no mundo do consumo absoluto. Também é assustadora a desvalorização da linguagem verbal e do pensamento discursivo em favor da propagação mediática do conhecimento. Dito isso, pertenço a uma geração que já nasceu sob o assédio do refrão da Morte da Arte, ouvindo a ladainha. Sou imune, portanto, a novidades compulsórias e a velhas profecias. Quando comecei, nos anos 70, havia até uma crença dita vanguardista, messiânica, na publicidade…

A reiterar a máxima de Spinoza – a verdade aponta o erro – , depois disso, muita arte à altura da grande tradição moderna foi e vem sendo feita. Em particular, no Brasil, assistimos entre outras coisas ao extraordinário desfecho de algumas obras cruciais da nossa modernidade: Iberê Camargo, Sérgio Camargo, Amílcar de Castro, Franz Weissmann e Mira Schendel. Como me alimentei de tudo isso, já devo ser um fantasma e, ainda por cima, um fantasma que trabalha. Poesia não é panacéia, nem relíquia metafísica. Não há como (nem por que) retornar ao páthos da alta espiritualidade que se exprimia pelo tom altivo – mas, já notava Adorno, um tanto schizo – de Hölderlin. Muito menos, contudo, há por que acatar passivamente um onipresente populismo pós-moderno, que transforma a democracia quase em sinônimo da tirania do frívolo.

*Ronaldo Brito nasceu no Rio de Janeiro, em 1949. Com um trabalho bastante conhecido e influente como crítico de arte, seu ativismo cultural iniciou-se em princípios da década de 70, no jornal Opinião. Foi um dos editores da revista Malasartes, do jornal A parte do fogo e escreveu alguns dos trabalhos críticos mais consistentes sobre o neoconcretismo e as obras de Sergio Camargo e Eduardo Sued, entre outros. Estreou como poeta em 1977, com o livro O mar e a pele.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s