O que aprendi com o cinema, parte II

No final de 2009, meu grande amigo e jornalista, Pedro Abreu, deu-me uma dica, quase uma ordem: “Veja esse filme o mais rápido possível”. Era O Segredo dos Seus Olhos, um filme que mudaria a minha vida e meu entendimento sobre a função da arte; que me emocionaria a cada vez que eu assistisse mais uma vez à película toda ou a trechos esparsos no Youtube; um filme que certamente eu mostrarei aos meus filhos assim que eles atingirem a idade ou a curiosidade necessária.

O espírito de todas as ditaduras em apenas uma cena

Seria impossível eleger uma ou algumas das melhores cenas de O Segredo dos Seus Olhos, uma vez que o próprio diretor e roteirista afirmou que estava buscando um resultado em que nada fosse supérfluo ou “sobrasse” no filme. E, temos que concordar, ele conseguiu. Nenhum minuto deste filme é em vão. No fim da minha sessão particular de mim comigo mesmo, tive vontade de sair correndo pela rua, provavelmente nu e com uma faixa escrito “Quero ser argentino!”, porque uma pergunta não saía (e não sai) da minha cabeça desde então: por que não fazemos filmes assim? Pois, me desculpem os fãs de Divã (lixo travestido de cinema), mas nós estamos longe de um cinema sequer satisfatório. Só o Ricardo Darín tem na manga duas atuações em obras-primas: Nove Rainhas e o já citado O Segredo dos Seus Olhos.

Os pequenos detalhes...

Sei que vocês esperam de mim alguns míseros argumentos de por que este filme mexe tanto comigo se eu já assisti a muitos e muitos outros. Devo dizer que, primeiro, seria mais fácil para mim me defender atrás de um clássico cult europeu, dos quais até gosto muito, só para afirmar aos quatro ventos que meu filme preferido é um alternativo de mais de sessenta anos de idade. Mas a verdade é que meu preferido é um argentino recém-nascido, vencedor de Oscar e sucesso estrondoso de bilheteria. Ora, de acordo com meu conhecimento cinematográfico razoável, isto quer dizer que a população não é burra e tem, sim, bom gosto, para desespero dos elitistas. – Vamos aos argumentos:

Antes de mais nada, o espectador de O Segredo dos Seus Olhos precisa encontrar a sua estação de trem. Todo mundo tem a sua estação de trem dentro da memória, algo como na canção Encontros e despedidas, de Milton Nascimento. Algo que é melancólico e irrecuperável, angustiante e irreprimível. É um filme para quem não teme viagens  a partir de uma estação imaginária para a estação de nunca mais. Depois, o espectador precisa ter coragem para contar sua história em sua própria máquina de escrever, mas sem a letra “A”, como Benjamín Espósito, que escreve um livro numa velha Remington sem a letra “A” – creio eu, numa alusão ao AAA, comando paramilitar argentino. É a letra “A” que o separa de seu grande amor. É a ditadura militar argentina que promove este hiato, que ata as duas pontas da história do investigador.

Nove Rainhas, com Ricardo Darín

Devo ter assistido a O Segredo dos Seus Olhos umas quatro ou cinco vezes, resultado de minha necessidade de contaminar os outros com a paixão pelo filme. No embalo, acabo revendo algumas daquelas cenas pelas quais serei eternamente apaixonado. Nunca perde a graça. O maravilhoso plano-sequência do estádio, por exemplo, ou a cena do bar, em que é demonstrada a “teoria da paixão”.

No mais, só vendo para saber. No próximo post irei comentar os indicados ao Oscar e fazer minhas humildes apostas. Até lá!

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2 comentários sobre “O que aprendi com o cinema, parte II

  1. Sim, sim, Thi, amor de causar inveja.
    Uma grande história.
    Abraços!

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