A nova Lei Áurea: os gays e o dia seguinte

Há exatamente 123 anos, era assinada, pela princesa regente Isabel, em nome de seu pai, D. Pedro II, a Lei Áurea. Todos os mitos à parte, sabe-se que era uma questão, além de moral, econômica. Libertar os negros escravos era urgente numa sociedade escravagista em declínio galopante. Todos os brasileiros sabemos, ou deveríamos saber, que nada ou quase nada foi feito em seguida no sentido de uma política que salvaguardasse a população negra que então se tornava parte do jogo econômico e possuía os direitos de um cidadão como outro qualquer. Mas o modelo de liberalismo econômico rapidamente mostraria seus dentes, separando os empregados dos desempregados, os ricos dos pobres, os incluídos dos marginais. Esta é, senhores, uma das páginas mais capitais de nossa história, inscritas no livro dos problemas sociais e raciais que temos hoje.

Jair Bolsonaro: homens como ele enviaram 25.000 homossexuais para câmaras de gás

João do Rio, conhecido cronista do início do século XX, membro da Academia Brasileira de Letras, era gay. Todos sabiam. Imaginem: um intelectual, veado!, que consegue entrar para a ABL aos 29 anos. Um completo absurdo. Mas Machado de Assis, preto, o adorava, o admirava. Eu quero lembrar aqui o nome de seus detratores, seus desafetos, seus críticos vorazes, mas infelizmente não posso. Poderia rapidamente consultar a minha biblioteca, porém nem isso me apetece. Tais monstros não existem mais. Passaram.

Há muita gente que, hoje, repudia a dicotomia esquerda versus direita. Que acha que a ditadura civil-militar (sempre é bom ressaltar) perseguia “apenas” os comunistas. É preciso compreender que a cúpula da Igreja Católica, os empresários, a família tradicional e parte da imprensa apoiou aquela luta contra os inimigos da pátria, da moral, da família, de deus. Seria ingenuidade pensar que essas pessoas não existem mais, que elas vão apludir os iluminados e sensatos ministros do STF. Portanto, não seria inevitável e de suma importância separar o pensamento verdadeiramente liberal e progressista contra o conservador e reacionário? Como diz Slavoj Zizek, “nunca precisamos tanto de teoria como hoje”. De fato, está cada dia mais difícil reconhecer ideologias por trás dos mais diversos discursos. Nunca foi tão perigoso ouvir. “Quanto mais esquecido de si mesmo está quem escuta, tanto mais fundo se grava nele a coisa escutada”, já dizia Walter Benjamin.

Costumo discordar da maioria dos posicionamentos de Arnaldo Jabor, mas, da sua coluna de ontem, no Jornal da Globo, podemos retirar alguns pontos interessantes. Ele diz: “Mas até hoje muita gente não suporta a diferença. Porque o que os homens mais temem é a perda da identidade sexual, que os gays têm a coragem de assumir. O caso do Bolsonaro é exemplar. O Bolsonaro me fascina porque é o reacionário básico, um fascistinha puro, diferente de outros políticos que ocultam o direitismo patológico sob a capa da cordialidade e do cinismo. Bolsonaro, não! Ele é a essência do machão parado no tempo. Devia ser posto em formol para as futuras gerações o conhecerem no museu da nossa burrice histórica.”

Preocupa-me mesmo, não a questão jurídica, que mesmo em um país como o nosso, no qual a justiça funciona e des-funciona, ao menos não deixará a questão fora da legislação civil. Preocupa-me o dia seguinte. O que mudará sobre casais gays jantando em um restaurante, fazendo compras, tomando cerveja num bar? As piadas sobre a Farme de Amoedo, senhores, são engraçadas, admito, mas pensemos bem: que outro nome poderíamos dar àquilo senão ghetto? A sociedade irá tratar filhos de casais gays como trataram um dia os filhos libertos de escravos: como coitados, dignos de pena, ou pior: pessoas orfãs. O Brasil, a partir de agora, passará décadas e décadas fetichizando o gay, tratando-os, ou como mais especiais que outros, ou menos. Será cool ir a casamento gay, à festa de criança de pais gays; isto será moda e, muitas vezes, cínico. Indo mais longe: pais heterossexuais, hoje, mal conseguem explicar para seus pequenos filhos que todos são iguais, porém uns mais claros de pele, outros mais escuros; que somos, afinal, mestiços; que dirão então para explicar que há famílias com dois pais, famílias com duas mães? Continuaremos a formar monstros, a alimentar o ódio. Arrepia-me pensar em crianças de pais conservadores xingando os pais do amiguinho de “veados”, “pederastas”, e isto é apenas o começo, senhores. Muitos homossexuais ainda terão que pagar a conta mais cedo porque a “instituição família” quer proteger seus filhos daquela visão imoral e obscena de dois gays… jantando, namorando. A intolerância é uma besta mitológica irracional e imensa…

A dificuldade de produzirmos uma terminologia “correta” é típica e aproxima ambas as questões. É preto? Veado? Afrodescendente? Gay? Homoafetivo (essa eu acho de um eufemismo cavalar!)? Negro? Escurinho? Mãozinha-quebrando-para-baixo-no-pulso-seguida-de-uma-confirmação-de-entendimento-do-interlocutor? Homossexual? Travesti? Transexual? Transgênero? Sapatão? Negão? Pederasta??? Para mim, nenhum deles. Alguém só pode ser, ponto. Fulano é. Basta.

O caso dos transgêneros (antigos travestis), para mim, é o mais interessante. Podendo casar, eles passarão, de marginalizados da sociedade heterocrata para meras mulheres donas-de-casa, porque a chance de emprego continuará restritíssima. Não conheço o caso dos transsexuais, que mudaram de sexo perante a justiça, mas creio haver, aí, problema similar. Logo, logo estaremos discutindo cota de trabalho para transgênero. “Empregue um transgênero e desconte do imposto de renda”. Os dados mostram que, como eles iniciam a transformação do corpo ainda adolescentes, abandonam a escola em decorrência das chacotas e humilhações por parte dos colegas. A baixa escolaridade não os permite fazer parte da economia formal; para sobreviverem, prostituem-se. Ou você é daqueles que ainda pensa que a única coisa que homossexual gosta de fazer é sexo?

Enfim, é um tema muito complexo, do qual não tenho muito conhecimento. O que eu quis trazer para a discussão é: sem mudança de mentalidades, sem colocarmos a questão para debate nas escolas, se não lutarmos contra o conservadorismo anacrônico das igrejas, o reacionarismo das famílias, o militarismo ignorante, se não vencermos certos paradigmas históricos que atentam, de maneira absurda, contra os direitos humanos, em breve teremos a seguinte situação: homossexuais incluídos na legislação, mas excluídos e marginalizados nas entrelinhas do convívio social.

Ah! E antes que apareçam fascistinhas de todos os matizes: não vai ajudar me chamar de veado e todos os correlatos. É apenas mais uma tentativa previamente frustrada de fazer esse país andar. Para a frente.

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12 comentários sobre “A nova Lei Áurea: os gays e o dia seguinte

  1. Só gostaria de lembrar que transgêneros (identidade de gênero, como você se sente, homem, mulher ou um pouco dos dois) não são o mesma coisa que gays ou homossexuais masculinos (orientação sexual, desejo a determinado sexo, homem, mulher ou os dois). Existem transgêneros que se sentem somente atraídas por mulheres ou são bissexuais.

  2. Só gostaria de lembrar que transgêneros (identidade de gênero, como você se sente, homem, mulher ou um pouco dos dois) não são o mesma coisa que gays ou homossexuais masculinos (orientação sexual, desejo a determinado sexo homem, mulher ou os dois). Existem transgêneros que se sentem somente atraídas por mulheres ou são bissexuais.

  3. Bom dia ,
    O que acho mesmo importante é termos essa lei que permiti os direitos da união homoafetiva. Vivo uma união há cinco anos, e neste tempo adquiri apartamento, carro, casa e outros bens. E é preocupante pensar o que seria feito com os meus bens caso algo aconteça comigo. Como minha família iria regir com meu atual companheiro, que em tudo atuou de forma participativa? Ele ficaria desamparado ! Meu emprego ofereci um ótimo plano de saúde, porque não posso incluí-lo como dependente ? Esses são os fatos que realmente me preocupo. Agora quanto a aceitação da sociedade….tenho certeza que esta decisão do STF ajudará a sociedade a aceitar melhor esta união de forma progressiva. Haverão heteros, homofóbicos, conservadores… criticando, mas terão que engolir!Será constitucional!

  4. Bom dia, Guilherme! Encontrei o blog por acaso e adorei. Excelente texto.
    E em se tratando da sua explanação sobre tal assunto, fez-me refletir. Penso que estamos condicionados ao legado de uma mal contada História e a uma cultura resultada desta.
    Assim como os ecravos e forros, os gays do século XXI têm contado com a “boa vontade”, não mais da Coroa, mas do Governo. E o que é lamentável, nem tanto pelo fato e mais pela ignorância do povo (incluo os gays), por não perceberem que dificilmente (disse ‘dificilmente’ e não impossível) medidas como reconhecimento legal de união dos gays e coisas do tipo mudarão o modo de pensar de uma sociedade marcada pelas DIFERENÇAS.
    A propósito, muitos dos gays são os primeiros a discriminarem-se justamente por terem crescido nesta sociedade e por ter neles enraizados tais “valores” (entenda-os como quiser). Pois é, meu caro, a questão é bem mais complexa que se pode pensar. Sou a favor de um progresso e torço para isso, mas é chato tudo se tornar homofobia.
    Admiro pessoas que analisam os fatos repeitadamente e a fundo. Nem todos têm propriedade para criticar, por simples e sem fundamento preconceito; e muito menos romantizar os fatos (o mesmo que fizeram por mais de um século acerca da abolição) por quererem uma utópica igualdade.
    Tornei-me sua fã. (risos)
    Sem mais.

  5. Bom dia, Guilherme! Encontrei o blog por acaso e adorei. Excelente texto.
    E em se tratando da sua explanação sobre tal assunto, fez-me refletir. Penso que estamos condicionados ao legado de uma mal contada História e a uma cultura resultada desta.
    Assim como os ecravos e forros, os gays do século XXI têm contado com a “boa vontade”, não mais da Coroa, mas do Governo. E o que é lamentável, nem tanto pelo fato e mais pela ignorância do povo (incluo os gays), por não perceberem que dificilmente (disse ‘dificilmente’ e não impossível) medidas como reconhecimento legal de união dos gays e coisas do tipo mudaram o modo de pensar de uma sociedade marcada pelas DIFERENÇAS.
    A propósito, muitos dos gays são os primeiros a discriminaremm-se justamente por terem crescido nesta sociedade e por ter neles enraizados tais “valores” (entenda-os como quiser). Pois é, meu caro, a questão é bem mais complexa que se pode pensar. Sou a favor de um progresso e torço para isso, mas é chato tudo se tornar homofobia.
    Sem mais.

  6. Meu primo, concordo com toda sua retórica de encontro a todo pensamento reacionista. Mas acrescento a minha idéia quanto a isso tudo.
    Acredito que não basta somente “mudar” o pensamento social hetero dos seres humanos, é necessário também que os gays comecem a se portar de uma maneira mais respeitável.
    João do Rio se fez respeitar e ser admirado, pois seu comportamento não beirava a margem da sociedade, ele simplesmente se impôs de uma maneira categórica frente a tudo. Você pode ser o que você quiser, fazer o que você bem entender, mas toda a sua postura frente a seus gostos e interesses mudará a forma como as pessoas vão tratar e enxergar você. Muitos gays precisam entender que não é necessário mais se vestir de maneira a ulular e renhir para pleitear seus direitos, pois isso gradativamente e silenciosamente já veio sendo feito por muitos que não se vestiam de forma obscena e nem gritavam feito aves, muitos reacionários e militantes fazem e fizeram isso de forma elegante. Não há mais necessidade de agredir e empurrar goela abaixo a sociedade com posturas femininas e momices, pois o espaço já esta sendo aberto, paulatinamente, porém avançando…
    Todos precisam mudar, desde uns aceitar os diferentes e os diferentes saberem se portar frente aos ditos “normais”. Não há mais porquê de gays portarem-se de formas tão estereotipadas.

  7. A legalização da união homoafetiva não é verdadeiramente um meio de gerar maior aceitação na sociedade. Não é este o papel da legislação de um país. A razão pela qual o Supremo decidiu, após muito se discutir, pelo reconhecimento de união civil de duas pessoas do mesmo sexo é a garantia dos direitos da personalidade agasalhados pela nossa Constituição.
    A pretensão é assegurar direitos como seguro, saúde e previdência. E já é o um grande passo, devemos admitir. É menos uma situação humilhante não ter mais que se submeter ao crivo do judiciário no que concerne aos direitos básicos, única e exclusivamente porque se relaciona com uma pessoa do mesmo sexo.
    Quanto à mudança de mentalidade, esta só é possível com amplo debate e conscientização, como você mesmo expôs. É um longo caminho, lamentavelmente.

  8. É sempre bom ler algo que comunga com nossa indignação frente a posicionamentos por vezes naturalizados. A liberdade só é liberdade se ela garante direitos, se ela possibilita acessos, se ela reconhece o ser, que como bem disse você, simplesmente “é”. Sem dúvidas que passos estão sendo dados, a custo de muita dor que deve permanecer, mas que ao menos, saca-nos deste lugar da impropriedade, de ter que ser o que querem que eu seja e não o que eu quero ser de fato… parabéns pelo texto. Um abraço.

  9. Meu caro, texto ótimo!
    Tenho visto em muitos lugares (na internet), que o maior problema dos direitos homossexuais (ou seja lá como for a forma com que chamam isso) não é o direito em si, mas a forma como os homossexuais são colocados perante a sociedade. Temos hoje, uma questão que não abrange apenas dois lados de uma moeda, mas vários lados. Ao mesmo tempo que queremos que a comunidade GLS (GLBTTS, etc) seja integrada na sociedade, ao mesmo tempo temos um comportamento elitista e seletista, tal como fazemos com as questões raciais.
    Daqui a pouco, como você mesmo disse, criaremos sistemas de cotas para homossexuais devido à discriminação sofrida por nós.
    Sou homossexual, mas, mesmo assim, creio que a questão não é liberar o casamento gay, etc., mas limpar a mente de certos conceitos ultrapassados.
    Heteros e homos estão errados. Acho deprimente a ação de Bolsonaro, mas acho errônea a ação da bancada pró-GLBTTS no STF. Ambos estão impregnados de pensamentos seletistas. Não querem diversidade, como propõem.
    Concordo com você que essa é uma questão complexa. Mas penso que, no fundo, sua solução se baseia em apenas um exercício de esforço moral.
    Fora isso, seu texto está excelente, como sempre.

  10. Sensacional, amor!!!
    Vc como sempre é ótimo e concordo com todas as linhas, fiz um comentário maior no Facebook, antes de ter lido aqui… Contei sobre o que ouvi hoje no salão, era um comentarista/radialista evangélico, imagina…
    Ah, e o João do Rio era filho de mãe negra e um pai intelectual, que com certeza em pleno fins de século XIX era mais elucidado que muitos “seres pensantes” do século XXI… Casal este que simplesmente se preocupou em criar um filho para “ser” e não para “parecer” alguma coisa… Gostei particularmente dessa parte: “Alguém só pode ser, ponto. Fulano é. Basta.” Enfim, não tenho nem o que falar, as igrejas hipócritas, aqueles conceitos conservadores, fora todos os absurdos contra os direitos humanos… É inacreditável que depois do Holocausto, da maior crise de civilização que o mundo já passou, as pessoas ainda tenham coragem, pra dizer o mínimo, de pensar e agir dessa forma. É de dar enjoo.

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