Palavras de Vilém Flusser sobre nacionalismo

“O nacionalismo é sexo ocidental sublimado. Tem portanto a estrutura desse sexo. Essa estrutura está baseada, como já disse, no projeto medieval da “dama”. O cavalheiro defende as cores da dama, e essas cores são sua bandeira e seu escudo. Os torneios dos cavalheiros são atos rituais que substituem o coito. Mas sempre existe a possibilidade de dormir com a dama. A dama sublimada é o povo. O cavalheiro sublimado é o patriota. Mas o patriota leva vantagem sobre o cavalheiro por não poder e não precisar dormir com “o povo”. A sua virilidade nunca era sujeita à prova. Isto não era a sua única vantagem. O cavalheiro pertence a uma organização feudal que exige disciplina. O patriota (que ou é o burguês abastado ou turba enfurecida) pode ser inteiramente indisciplinado. Com efeito, um dos atrativos do nacionalismo reside justamente na dissolução da disciplina. O nacionalismo liberta. O patriota se entrega ao povo amado, justamente para libertar-se da disciplina e da responsabilidade por seus atos. O nacionalismo é uma forma esplêndida de transformar o homem em “gente”. “A gente” não necessita de escrúpulos, nem sofre dúvidas existenciais quanto às normas do seu comportamento. “O povo” é doravante o valor supremo, e a existência individual está subordinada a essa “realidade” suprema. O projeto existencial do indivíduo é apenas um subaspecto do projeto “basáltico” ou “monolítico” (como dizia o Füher) do povo. Praticamente superei a morte, ao ter-me integrado no povo imortal amado. É portanto doce e decorativo (dulce et decorum est) morrer pelo povo. O patriota infelizmente não consegue essa morte desejada. É às vezes forçado a morrer por si mesmo. Creio que nessa morte o nacionalismo periclita. É portanto mais indicado fazer-se de conta que a morte não existe. Só assim consegue a gente ser realmente “a gente”. Um bom método para esquecer a morte é cantar canções patrióticas e fazer passeatas.

O povo ardentemente amado está sempre rodeado de inimigos internos e externos. O povo amado sofre. A razão deste sofrimento está no fato curioso de que os demais povos não reconhecem os direitos do nosso. Talvez porque esses outros povos também se componham de nacionalistas. Isto quanto aos nossos inimigos externos. E os nossos inimigos internos são aqueles que não amam o povo, mas persistem num individualismo cego, não querem ser como “a gente”. São traidores. Os nossos inimigos são odiosos, e o nosso ódio a eles está em proporção direta com o nosso amor ao povo.

Concordará o leitor que essa maneira de ver a chamada “realidade social” é cretina. Mas o idealismo romântico alemão conseguiu o feito memorável de transformá-la na doutrina histórica que nos é ensinada, a todos nós, nas escolas. É verdade que os nossos professores atenuam um pouco a profunda estupidez dessa doutrina, para torná-la mais aceitável. Mas essa estupidez transparece em quase todos os capítulos dos livros de história escolares. A história da humanidade fica assim reduzida a uma série monótona de brigas entre povos, intercalada por breves provas da superioridade do nosso próprio povo, ou por acontecimentos que provam como o nosso povo, na sua inocência, tem sido espoliado. O resultado disso é que somos obrigados a apreender os nomes de generais e reis, e as datas de batalhas, o que tem um efeito soporífico que prepara as nossas mentes para o nacionalismo.”

(FLUSSER, Vilém. A história do diabo. São Paulo: Annablume, 2010.; pág. 92-93)

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