Ficaremos sem carnaval ou teremos dois?

Há exatos 100 anos, adiávamos o carnaval. O motivo fora a morte, no dia 10 de fevereiro de 1912, do Barão do Rio Branco, diplomata e então Ministro das Relações Exteriores do Brasil, conhecido hoje por ser nosso fouding father, maior responsável por nossas atuais fronteiras e patrono de nossa diplomacia. José Maria da Silva Paranhos Júnior, o nosso barão, era tão admirado ainda em vida que, diante do luto geral – que incluiu o fechamento voluntário do comércio, dos bancos, dos escritórios privados, das repartições públicas, dos cinemas e teatros, além do cancelamento dos bailes – o presidente do Brasil, Marechal Hermes da Fonseca, decretou o adiamento do carnaval. Os festejos não mais começariam no dia 17 de fevereiro, mas transferidos para 6 de abril. A Gazeta de Notícias registrou “O País soluça”, mas não teve jeito: o povo pulou carnaval duas vezes. E, não satisfeitos, fizeram marchinha:

“Com a morte do Barão
Tivemos dois carnavá
Ai que bom, ai que gostoso
Se morresse o Marechá”

Este episódio foi objeto de pesquisa e culminou no maravilhoso e bem documentado livro do diplomata e pesquisador Luís Cláudio Villafañe G. Santos, O dia em que adiaram o carnaval – política externa e a construção do Brasil (Ed. Unesp). Mas, infelizmente, não posso render minhas homenagens ao barão. Algo me impede.

Como todos já notaram, algo ameaça o carnaval de 2012. E não falo da greve dos policiais militares, civis e bombeiros: falo de militares nas ruas. Não sei vocês, mas eu já estava acostumado com as regras de convívio dos policiais militares. O Exército, este não tem senso de humor algum. Falta de humor no carnaval é dose. E digo falta de senso de humor como o maior dos meus eufemismos, pois a verdade é que eu tenho medo, muito medo de militares nas ruas. Aqui, na Venezuela, no Egito, na Síria, em qualquer lugar, militar na rua não rima com democracia. É, senhores, marchinha funesta. Porém, no fundo, não sei se pode ficar pior do que tava, afinal, só quem é carioca sabe o clima do qual estou falando. É aquele clima esquisito. Você sabe. Não dá para confiar no braço mais visível do Estado. Desviar, evitar, temer. Não dá pra explicar. É subjetivo demais. É como explicar o carnaval (no nível em que o vivemos) a um estrangeiro.

O carnaval, diria mais uma vez Roberto DaMatta, é nosso maior enigma. José Eduardo Cardozo, o Ministro da Justiça que não entendeu nada, afirmou ontem: “Teremos um carnaval ordeiro.” Ora, senhor ministro, tudo o que o carnaval não é e não deve ser é ordeiro. É contra a sua natureza. Veja bem, senhor ministro, vou lhe explicar como a banda de Ipanema toca: o prefeito – repito – o prefeito entrega as chaves da cidade para o Rei Momo. Carnaval ordeiro… É para se rir.

Agora devo dizer o que talvez seja o motivo central de minha intervenção. Assim como afirmei na ocasião da ação dos estudantes da USP e da recente greve dos bombeiros, o problema não está no motivo da manifestação, mas na sua execução. É preciso percepção política para trazer a população e a opinião pública para a causa. O que os manifestantes não devem fazer: 1) falar demais em telefones possivelmente grampeados (escutas são facilmente manipuláveis por edição televisiva e radiofônica); 2) danificar o patrimônio público; 3) atrapalhar a vida diária da população; 4) levar as esposas e os filhos para os quartéis como forma de proteção política (configura ato de covardia); 5) usar camisas e panos para esconder o rosto (porque a causa é nobre e não há motivo para envergonhar-se); 6) fazer alianças políticas que, ao invés de fortalecer, irão enfraquecer o movimento, tal como acontece agora, com a ligação direta entre os grevistas e Garotinho; 7) escrever faixas de conteúdo contestável, como a que li hoje pela manhã: “Mais vale lutar por dignidade abertamente do que se submeter à corrupção em sigilo”. Achei bem esquisito. Mas há acertos: trazer partidos de esquerda desalinhados com o governo para perto, pois são os únicos capazes de dar apoio político e embasamento estratégico para a negociação; recomendar às tropas que mantenham 30% do efetivo para atuar em emergências e a manutenção das UPPs e os salva-vidas da orla.

O Rio virará um caos? Fora o caos normal de um carnaval carioca, não. Isto já estava no balanço político há um bom tempo, pois, evidentemente, o governo do estado já havia deixado o governo federal de sobreaviso caso a greve se materializasse. O Rio já passou por momentos piores. Por isso, mantenham a greve para que o atual momento não seja em vão. Agora que começaram, sigam impassíveis e honrados até o fim.

Sérgio Cabral sairá mais forte ou mais fraco desta crise? Depende de nós. Se cairmos na tentação midiática e ficarmos contra as manifestações, ou seja, contra os policiais e bombeiros, tiraremos o governador da equação e o fortaleceremos por omissão. Se, ao contrário, colocarmos Cabral na pauta do dia, levaremos o debate para um nível mais profundo, estrutural mesmo, e o forçaremos a falar. E Cabral quando abre a boca nervoso é aquela maravilha. E tem mais: enviar o líder do movimento grevista, o cabo bombeiro Benevenuto Daciolo, para Bangu, como se este fosse um prisioneiro comum, quando é um prisioneiro político, é inadmissível numa democracia.

Agora, quem sai favorecido dessa crise de segurança é o prefeito Eduardo Paes, que, do fundo de seu cinismo habitual, apenas dirá, em outras palavras, é claro: “Eu só queria fazer o carnaval, portanto não tenho nada a ver com isso.” E o Rei Momo (que, agora, não sei por que, é magro) responderá: “É, prefeito, tu me destes a chave de um prédio prestes a desabar.”

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2 comentários sobre “Ficaremos sem carnaval ou teremos dois?

  1. O Barão do Rio Branco, em sua sabedoria, afirmou: “Existem no Brasil, apenas duas coisas realmente organizadas:
    a desordem e o carnaval…”

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