“O álcool é mais barato que a ficção”, por Javier Rodríguez Marcos

cervantes

Aqui vai a minha tradução de um pequeno e interessante artigo publicado no último dia 4 na seção de artigos do jornal espanhol El País. O texto original pode ser conferido aqui.

Entre um romance e outro, os romancistas falam da morte do romance. No mesmo dia em que alguém pôs esse nome em uma história fictícia, começou a redigir sua certidão de óbito. Desde então, desde “a manhã seguinte ao naturalismo”, os escritores têm dedicado os dias a redigir romances e as noites a matar um gênero que hoje parece imortal, mas que tem apenas dois séculos de vida, por mais que os estudiosos oitocentistas, fascinadas pela evolução das espécies animais, tenham batizado como tais muitos livros da Antiguidade ou do Renascimento. Primeiro o produto, logo a etiqueta. Nietzsche dizia que o que tem história não pode ter definição, e talvez essa incompatibilidade explique o escorregadiço de um tipo de narração que Cervantes elogiou naquilo que tinha de “escritura desatada” que o engolia todo.

Isso pelo lado teórico. Pelo lado sociológico, dizer que o romance tem história supõe que teve um princípio e que poderia ter um fim. A música é anterior aos discos e as histórias, anteriores aos livros (incluindo os digitais). Do final do gênero romanesco, no sentido consagrado há 200 anos,  vem discorrendo há duas décadas Luis Goytisolo, que em 1995 dedicou seu discurso de ingresso na Real Academia Española à influência da imagem na narrativa espanhola. Antes, inclusive, o autor de Antagonía já havia alertado que a extinção do romance não viria da falta de talento dos escritores, mas da falta de interesse dos leitores por obras que fossem mais que entretenimento. Seu colega Eduardo Mendoza também vem sustentando há anos uma opinião parecida.

O crítico Ian Watt, autor de um estudo já clássico sobre a ascensão do romance aos altares que antes ocupavam o teatro e a poesia, lembrava que no século XVIII era mais barato embebedar-se com gim do que comprar um jornal. Para não falar de um livro, esse objeto perfeito que durante séculos foi um artigo de luxo. Hoje estamos na margem oposta: todo cidadão com uso da razão leu romances e mais de um os escreveu. Onde está, pois, a crise? Na capacidade de influenciar a sociedade, na evidência de que a literatura não forma o gosto dominante, mas o reflete. Os meios audiovisuais tomaram sua relevância. A esta conclusão chegou Jonathan Franzen nos Estados Unidos nos anos em que Goytisolo o fazia na Espanha. Ainda que logo fosse moderar sua apocalíptica postura, o futuro autor de Liberdade analisou um estudo sobre o ócio cultural de seu país para descobrir que a narrativa havia sido sepultada pela televisão, pelo cinema e inclusive a rádio. Quer dizer, foi em 1996, com a Internet em sua fase pré-histórica. A cultura, contudo, está cheia de mortos que gozam de boa saúde. O óbito às vezes não é mais que mutação. A fotografia não matou a pintura, mas alterou para sempre o realismo. Disso – e alguns o chamam morte – falam também os romancistas… quando não estão escrevendo romances.

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