“O Rio das elites”, por Marcelo Freixo

tiempo argentino

Deu na imprensa argentina, no Tiempo Argentino. Segue o artigo em português:

Nos últimos anos, o Rio de Janeiro vem sendo um dos palcos mais expressivos das mudanças que atualmente estão reinventando a dinâmica das relações sociais nas metrópoles globais do mercado transnacional. Com novos horizontes institucionais, estratégias de convivência e dispositivos de controle, o Rio sofre com a implementação de um “empresariamento urbano” que está transformando a cidade em um verdadeiro balcão de negócios.

Já faz um tempo que assistimos à estabilização da unidade do projeto político da classe dominante do Rio. Essa nova configuração da correlação de forças, que se expressa na coalizão das três esferas de governo (municipal, estadual e federal), garantiu as condições para que as atenções internacionais se voltassem para a vida carioca. Com isso, o mundo dos grandes empreendimentos encontrou “nesse maravilhoso cenário para uma cidade” o seu novo cartão postal. Em nome dos megaeventos internacionais, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, os governos promovem alterações estratégicas para esse processo. Por um lado, alimentam uma arena de oportunidades de negócios para grandes investidores. Por outro, viabilizam a produção de um consenso político, uma espécie de “patriotismo de cidade”, que permite angariar apoio popular ao projeto em curso e legitima não somente mercantilizar os direitos sociais como criminalizar as críticas, os conflitos urbanos e as demandas trabalhistas que se opõe ao modelo hegemônico. Servem como verdadeiros estandartes do programa “cidade-empresa” que vem sendo instalado no Rio.

O Maracanã é um dos símbolos mais emblemáticos desse processo. Desde 2010, o poder público gastou R$ 932 milhões em reformas do seu complexo. Se somarmos os investimentos realizados desde 1999, o montante chega perto de R$ 1,5 bilhão. Apesar desse enorme investimento público, o Estado decidiu agora privatizar a gestão de seu Complexo. Ou seja, enquanto os custos das reformas são públicos, os lucros da gestão serão privados. E desde que se iniciou a licitação, já se comenta sobre quem será o futuro dono do Maracanã. Eis o X da questão.

A previsão de retorno é de apenas R$ 181,5 milhões, cerca de 10% de todo o dinheiro público empregado, o que não paga nem os juros dos investimentos realizados pelo Estado. Já a expectativa de lucro da futura concessionária do Maracanã é da ordem de R$ 2,725 bilhões. A conta, definitivamente, não fecha.

Vale lembrar que antes da primeira reforma o Maracanã já era tombado como patrimônio cultural do Rio. Um lugar que reunia pessoas de todas as classes. Mesmo assim, quando os governantes derrubaram sua estrutura, criaram os camarotes e acabaram com a geral. Isso não foi por acaso. A elitização do esporte caminha junto com a elitização da cidade.

O Rio precisa ganhar com a Copa e as Olimpíadas: saúde, educação, cultura, saneamento básico e mobilidade urbana. É a vida dos moradores da cidade que precisa melhorar. Sendo assim, nossa missão é lutar para que a mobilização popular consiga reverter este quadro.

Marcelo Freixo é professor de História, deputado estadual, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj

[Comento]

Clap-clap-clap-clap para “Eis o X da questão”. 

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