Exposição dos feios (conto)

dianearbus3

Tampoco puede decirse que tengamos ojos tiernos,
esa suerte de faros de justificación por los que a veces
los horribles consiguen arrimarse a la belleza.

Mario Benedetti, La noche de los feos

O obstetra que puxou Íris para ver o mundo pela primeira vez notou de pronto que a menina era estrábica – seus olhos convergiam, procuravam-se. Era um bebê disforme, sem viço, esmirrado e de pouco peso mesmo depois quarenta semanas bem alimentadas. Repugnante para quem ia vê-la na maternidade com expectativas, estava desde já condenada a todo infortúnio de zombarias e difamações pela vida escolar e mesmo depois, no trabalho e na velhice. Os familiares tocavam a ponta do nariz no vidro do berçário e envergonhavam-se com sua feiúra; sentiam-se dilacerados porque considerar repulsivo um filhote de qualquer espécie mamífera pode ser grave desvio de humanidade. Seus pais, no entanto, amaram-na tanto quanto puderam, pois se esforçaram – amaram com os olhos fechados.

A primeira semana de aula, aos quatro anos, representou a ingênua descoberta de um mundo que lhe era receptivo. Seus colegas, ainda puros, não a rechaçaram, não haviam aprendido a diferenciar o disforme do admirável, o horrível do esplêndido, e Íris acostumou-se a estar entre iguais.

Mais tarde, no primário, Íris passou a comer sozinha seu pacote de bolachas e a beber em silêncio o leite de sua garrafa térmica. O choque de saber que sua vida era desgraciosa, de compreender a ausência de espelhos em sua casa, a risadaria incontida nas festas de família, a proteção exagerada de seus pais em proibi-la de ir para a rua sem motivo excepcional a magoavam profundamente. As pequenas esquetes para as aulas de teatro, as apresentações de trabalho em grupo, os recreios, os joguetes, tudo para ela era mais difícil porque tudo era uma questão de ser escolhida.

Quando foi aprovada para ingressar na Faculdade de Psicologia, teve que sair da casa dos pais, onde não era feliz, e dividir um apartamento próximo ao campus com mais duas meninas, onde também não era feliz. No entanto, a despeito de toda infelicidade, por não ter um namorado nem amigos, era comum ter todo o espaço para si nos finais de semana e feriados. A solidão não a molestava de nenhum modo – era mais suportável que a chacota.

Não muito longe dali, Hélio rabiscava a inércia na parede mais perto de sua cama enquanto pensava na maneira mais rápida de saldar as dívidas do apartamento em que morava desde que abandonara a casa dos pais. Enquanto sonhava com o dia em que se tornaria um fotógrafo de sucesso, com suas obras expostas nas galerias mais importantes do mundo, ganhava o mês fotografando como freelancer para agências de publicidade, casamentos, festas de debutantes, prostitutas ou qualquer pessoa que lhe pagasse por uma foto profissional que pudesse tornar encantador aquilo que era desagradável.

Íris olhava despretensiosamente o mural da faculdade quando viu um pequeno cartaz com a descrição do serviço de fotografia de Hélio e o número de telefone para contato. Queria provar para si e para os outros que poderia ser linda e atraente se atingisse o ângulo certo, a produção ideal e a luz adequada. Ligou, combinou o preço a ser pago e o local para a sessão. Decidiu, por fim, posar dentro de sua casa porque tudo o que menos queria era despertar olhares maledicentes que, ela sabia, não disfarçam.

Hélio tocou a campainha, entrou e instalou seus equipamentos sem dizer uma só palavra. Não conseguia crer que uma mulher pudesse ser tão grotesca com uma voz tão deliciosa e harmônica. Íris, armada como sempre, suplicou: não me olhe. Prometo, ele disse.

No início ela buscou a câmera de modo desconcertado, artificial, forjando uma sensualidade que não havia vivenciado antes, apenas via nas revistas femininas que a abatiam dia após dia enquanto esperava o momento de sua redenção. Depois se esqueceu das lentes e foi concluir seus afazeres comezinhos: ler, cozinhar, lavar a louça vestindo apenas uma calcinha velha, atender uma ligação burocrática ou preparar relatórios. Hélio clicou como um obsessivo. O conjunto de imagens instantâneas precedidas e sucedidas pelo abismo aterrador da memória ou da esperança, na vida de Íris, suspendia todo juízo estético – ela havia, então, entendido que o julgamento é o estorvo de quem vê e a anistia de quem é visto, e ele se regozijou por ter vivenciado aquelas sensações ainda jovem, como uma revelação ou outra dimensão do sexo.

Hélio então a perguntou se podia programar sua máquina para realizar fotos contínuas, quase tão rápidas quanto uma película, e ela, maliciosa como nunca, respondeu: sim, mas para quê? Para que eu também possa ser visto, ele disse. Hélio havia quebrado sua promessa – a de não olhar – mas estava tomado por uma paixão tão repentina e arrebatadora que sua cabeça não podia decidir entre o certo e o errado. Ela, no entanto, sabia o que queria desde o início.

A exposição (via Facebook) das fotografias dos feios foi um fracasso (entre os eleitores do Partido da Restauração Nacional).

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