Os fatalistas (conto)

Este conto foi escrito exclusivamente para o Prêmio Off-Flip 2014. O autor não ganhou o prêmio pela terceira ou quarta vez. Mas publica aqui pelo registro. Ah, o prazo de envio era 12 de maio, aniversário do autor, portanto não sabíamos o que aconteceria na copa do mundo. Dedico este conto aos meus grandes amigos jornalistas e fãs de futebol Pedro Abreu e Leandro Lainetti. 

CAPA-DO-JT1

Toda a força do futebol está nesse encontro frente a frente, um olhando nos olhos do outro, do homem com o destino. Só que o homem só vê o destino depois que ele descerra o último véu. Por isso é que o torcedor se encolhe e emudece no momento em que o destino vai principiar a desencadear-se, sem que qualquer força humana possa detê-lo.

Mario Filho, “O negro no futebol brasileiro”

Eram os deuses futebolistas? Quando o árbitro apitou o fim da partida, Eulálio permaneceu sentado, as mãos entre as pernas, esperando outro desfecho, que por certo não viria, para aquela copa do mundo de dois mil e catorze. O rosto era tal qual o do menino José Carlos Villela, que estampou a capa do Jornal da Tarde na eliminação de oitenta e dois; o luto pueril daqueles meninos que completam o álbum de figurinhas com a fuça dos jogadores e depois sentem a frustração avassaladora da derrota. E o maracanã, coliseu abotoado, marchando uma vez mais em silêncio, tendo de enfrentar a própria ressaca de consciência arrogante. O país perdeu como perderia outras vezes, porém Eulálio não queria saber de filosofia, religião ou autoajuda, queria apenas a seleção campeã e poder dizer aos colegas da escola: vi tudo da arquibancada com meu pai, o Neymar me deu a camisa. Mas nada disso ocorreu.

O pai de Eulálio foi um dos poucos no estádio a pensar: e se der o azar? O juiz apitou, a pelota correu e estava à deriva no gramado. Há algo de pinball no esporte bretão. O bate e rebate dentro da pequena área é o microcosmo do destino, de onde partem todos os acasos, todos os desencontros, todas as coincidências e para onde convergem, ao fim e ao cabo, todas as orações do futebol. Parcos zagueiros, um solitário goleiro e o abismo: o nada que é tudo, o corpo morto de deus, vivo e desnudo. Eulálio tentava engolir o choro, e só quem já enfrentou o fracasso vis-à-vis sabe o que é ter a garganta entalada em lágrimas, chorar para dentro. O sistema de som do estádio, programado para tocar aquelas canções naquele exato horário, tocou-as, e a festa que deveria coroar a vitória não se desfez por inteira; ao contrário, ainda confundiu meia dúzia de bêbados que ainda foliavam, como se fossem campeões, num maracanã vazio. Eles tardariam a compreender a tragédia, felizardos que eram. Mas Eulálio não podia se embriagar. Tinha apenas dez anos.

Era uma espécie de cinismo infantil, aquele choro. Quero ganhar, quero ganhar, quero ganhar, urrava Eulálio, sem compreender o acontecimento implacável: perdemos em casa outra vez. São Jorge, Nossa Senhora Aparecida, Jesus Cristo, Oxóssi, Nanã ou Tupã de nada valiam diante das moiras que fabricam, tecem o cortam o fio. Novo maracanazo, foi a capa dos principais jornais, que sem trégua exploraram a tragédia por uns seis meses, até que um colunista de maior envergadura publicou no caderno de cultura: por que perdemos? Um artigo histórico, escrito com elegância, que muitos recortaram e guardaram para a posteridade (inclusive o pai de Eulálio), apontava os motivos, jamais compreendidos inteiramente, que nos levaram a perder outra copa do mundo no maracanã. Pois bastou um dia para que leitores mais virulentos escrevessem ao jornal pedindo a demissão do colunista, e houve até aqueles que desviavam dos argumentos, apresentando provas cabais de que o estádio fora construído sobre um cemitério indígena ou que os argentinos tinham aprendido a operar poderosos patuás. Eulálio, não. Eulálio estava inconformado e não conseguia emitir nada que não fossem grunhidos de ressentimento no percurso que separava o coliseu carioca de sua casa, em Botafogo.

A Índia não participou da copa do mundo de mil novecentos e cinquenta porque a fifa não permitiu que seu escrete disputasse as partidas de pés descalços. Você sabia, Eulálio? Eulálio sabia, mas ficou com cara de tonto olhando para seu avô, esperando que a narração continuasse até a história da derrota, a maldita derrota, a ultrajante derrota, aquela antiga derrota que fazia a de dois e mil e catorze parecer um campeonato de várzea. Sabe, Eulálio, foi o uniforme, dizia o avô, foi o uniforme que nos tirou a copa do mundo de cinquenta. O uniforme e aqueles pretos, Barbosa, Juvenal e Bigode, aqueles pretos fizeram merda, completou. Os olhos do menino, petrificados, aguardavam o clímax da narrativa, o exato momento em que o ocorrido em cinquenta desabrochava como a derrota magna, a maior das vergonhas, e amenizaria aquilo que ocorria enquanto a boca do vovô de Eulálio se mexia.

Vamos jogar futebol de pino? Futebol de botão? Vamos jogar totó? Totó é bom. O avô de Eulálio fazia pergunta atrás de pergunta sem suspeitar da existência dos videogames. Neles a derrota era opcional, podia-se interromper a partida, alterar as condições de jogo, abortar os gols. Neles o destino era refém do futebol, a narrativa estava na ponta dos dedos, em suma, nos videogames a sorte era infalível e as moiras não tinham vez. Se Eulálio fosse um pouco mais velho, nem muito, seu avô poderia tê-lo levado a um bordel para que o menino pudesse enterrar, de uma vez por todas, aquela mágoa. Foi o que fez um terço dos nossos jogadores naquela noite em que foram derrotados. Conta-se que um lateral bem apessoado adentrou a madrugada com uma loira musculosa que cobrou três vezes mais do que o combinado para manter sigilo; um atacante genial entrou em coma alcoólico numa banheira de hotel e foi salvo pelo companheiro de concentração; o próprio técnico acabou nos fundos de uma boate dançando ao som de canções suspeitíssimas. Tudo porque perderam. Tudo porque perdemos.

Ao dobrarem, pai e filho, a primeira esquina nas cercanias do estádio, viram um homem de barba espantosa e branca, chinelos e roupas esfarrapadas, ser achincalhado pela polícia. Era um mendigo, podemos intuir, quiçá usuário de drogas, deve ter cometido pequenos furtos. Era um homem. E apanhava. E como a horda de derrotados não emitia um som sequer na volta para casa, em silêncio estavam e em silêncio permaneceram enquanto apreciavam o homem apanhar. Ainda pôde se ouvir uma senhora pouco discreta dizer aos berros: ladrão tem mesmo é que apanhar muito. Eulálio engoliu a seco o que restava de sua pipoca e caminhou mais rápido porque seu pai o alavancava do chão, cobrando pressa. Udenistas têm pressa.

Mil novecentos e cinquenta serviu foi para que aqueles sindicalistas comunistas mostrassem a que tinham vindo, dizia o avô de Eulálio. Getúlio, Jango, Brizola, aquela corja trouxe o caos, e tudo porque perdemos. Não se podia comprar quase nada, o dinheiro não valia coisa alguma, passeata todo dia, era um inferno, Eulálio, um dia você vai entender. O menino não ouvia, apenas apertava o controle remoto e zapeava em todos os canais, balançava as pernas sem parar e dava cabeçadas no sofá, como que num ritual de autoflagelo de fundamentalista católico. Devia pensar: que importa a nota na prova, que importa a separação do papai e da mamãe, que importa minha viagem à praia, que importa se fiz um bom dinheiro vendendo minhas figurinhas excedentes? Perdemos a copa em casa outra vez.

Eulálio nada dizia e também não disse uma só palavra nos dois dias subsequentes, depois confessou estar com fome e meteu um sanduíche pela goela com um refrigerante gelado de marca patrocinadora do mundial, depois se deitou e dormiu um pouco. A infância passou como um tiro. Foi um menino pouco afeito aos estudos matemáticos, mas formou-se em engenharia química e hoje trabalha numa firma multinacional de gases industriais, numa mesinha metálica, no fundo de um salão enorme, branco e fluorescente no qual as pessoas parecem camundongos de laboratório. Casou-se com uma colega de faculdade, tem dois filhos (um morreu no parto), não gosta de vinho do porto, detesta copas do mundo e tem saudades do avô, sobretudo das não raras vezes em que este fingia sacar-lhe o nariz e Eulálio corria a conferir se o nariz ainda ali estava.

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