bandido bom é bandido morto

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Bandido bom é bandido morto?

Exposição dos feios (conto)

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Tampoco puede decirse que tengamos ojos tiernos,
esa suerte de faros de justificación por los que a veces
los horribles consiguen arrimarse a la belleza.

Mario Benedetti, La noche de los feos

O obstetra que puxou Íris para ver o mundo pela primeira vez notou de pronto que a menina era estrábica – seus olhos convergiam, procuravam-se. Era um bebê disforme, sem viço, esmirrado e de pouco peso mesmo depois quarenta semanas bem alimentadas. Repugnante para quem ia vê-la na maternidade com expectativas, estava desde já condenada a todo infortúnio de zombarias e difamações pela vida escolar e mesmo depois, no trabalho e na velhice. Os familiares tocavam a ponta do nariz no vidro do berçário e envergonhavam-se com sua feiúra; sentiam-se dilacerados porque considerar repulsivo um filhote de qualquer espécie mamífera pode ser grave desvio de humanidade. Seus pais, no entanto, amaram-na tanto quanto puderam, pois se esforçaram – amaram com os olhos fechados.

A primeira semana de aula, aos quatro anos, representou a ingênua descoberta de um mundo que lhe era receptivo. Seus colegas, ainda puros, não a rechaçaram, não haviam aprendido a diferenciar o disforme do admirável, o horrível do esplêndido, e Íris acostumou-se a estar entre iguais.

Mais tarde, no primário, Íris passou a comer sozinha seu pacote de bolachas e a beber em silêncio o leite de sua garrafa térmica. O choque de saber que sua vida era desgraciosa, de compreender a ausência de espelhos em sua casa, a risadaria incontida nas festas de família, a proteção exagerada de seus pais em proibi-la de ir para a rua sem motivo excepcional a magoavam profundamente. As pequenas esquetes para as aulas de teatro, as apresentações de trabalho em grupo, os recreios, os joguetes, tudo para ela era mais difícil porque tudo era uma questão de ser escolhida.

Quando foi aprovada para ingressar na Faculdade de Psicologia, teve que sair da casa dos pais, onde não era feliz, e dividir um apartamento próximo ao campus com mais duas meninas, onde também não era feliz. No entanto, a despeito de toda infelicidade, por não ter um namorado nem amigos, era comum ter todo o espaço para si nos finais de semana e feriados. A solidão não a molestava de nenhum modo – era mais suportável que a chacota.

Não muito longe dali, Hélio rabiscava a inércia na parede mais perto de sua cama enquanto pensava na maneira mais rápida de saldar as dívidas do apartamento em que morava desde que abandonara a casa dos pais. Enquanto sonhava com o dia em que se tornaria um fotógrafo de sucesso, com suas obras expostas nas galerias mais importantes do mundo, ganhava o mês fotografando como freelancer para agências de publicidade, casamentos, festas de debutantes, prostitutas ou qualquer pessoa que lhe pagasse por uma foto profissional que pudesse tornar encantador aquilo que era desagradável.

Íris olhava despretensiosamente o mural da faculdade quando viu um pequeno cartaz com a descrição do serviço de fotografia de Hélio e o número de telefone para contato. Queria provar para si e para os outros que poderia ser linda e atraente se atingisse o ângulo certo, a produção ideal e a luz adequada. Ligou, combinou o preço a ser pago e o local para a sessão. Decidiu, por fim, posar dentro de sua casa porque tudo o que menos queria era despertar olhares maledicentes que, ela sabia, não disfarçam.

Hélio tocou a campainha, entrou e instalou seus equipamentos sem dizer uma só palavra. Não conseguia crer que uma mulher pudesse ser tão grotesca com uma voz tão deliciosa e harmônica. Íris, armada como sempre, suplicou: não me olhe. Prometo, ele disse.

No início ela buscou a câmera de modo desconcertado, artificial, forjando uma sensualidade que não havia vivenciado antes, apenas via nas revistas femininas que a abatiam dia após dia enquanto esperava o momento de sua redenção. Depois se esqueceu das lentes e foi concluir seus afazeres comezinhos: ler, cozinhar, lavar a louça vestindo apenas uma calcinha velha, atender uma ligação burocrática ou preparar relatórios. Hélio clicou como um obsessivo. O conjunto de imagens instantâneas precedidas e sucedidas pelo abismo aterrador da memória ou da esperança, na vida de Íris, suspendia todo juízo estético – ela havia, então, entendido que o julgamento é o estorvo de quem vê e a anistia de quem é visto, e ele se regozijou por ter vivenciado aquelas sensações ainda jovem, como uma revelação ou outra dimensão do sexo.

Hélio então a perguntou se podia programar sua máquina para realizar fotos contínuas, quase tão rápidas quanto uma película, e ela, maliciosa como nunca, respondeu: sim, mas para quê? Para que eu também possa ser visto, ele disse. Hélio havia quebrado sua promessa – a de não olhar – mas estava tomado por uma paixão tão repentina e arrebatadora que sua cabeça não podia decidir entre o certo e o errado. Ela, no entanto, sabia o que queria desde o início.

A exposição (via Facebook) das fotografias dos feios foi um fracasso (entre os eleitores do Partido da Restauração Nacional).

Eduardo Saboia: homo sacer e diplomacia contemporânea

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Há, na diplomacia, uma dimensão ética que não pode, em hipótese alguma, ser desconsiderada. Na maioria absoluta dos casos, coadunar-se com as normas internacionais estabelecidas é o suficiente para se manter dentro de um padrão moral admirável – é o que a diplomacia brasileira fez em sua tradição. No entanto, há situações que configuram um gap; situações excepcionais nas quais o direito internacional consuetudinário é insuficiente para garantir a proteção da vida humana, e a burocracia diplomática, incapaz de elaborar soluções satisfatórias rapidamente. Eduardo Saboia, diplomata brasileiro lotado em La Paz, viveu tal situação na pele e teve que contar apenas com sua altivez e coragem para resolver um imbróglio que o direito internacional e a prática diplomática tinham negligenciado. Agiu com as informações de que dispunha no momento e partiu para uma luta solitária e justa.

Independentemente da condição jurídica do senador Roger Molina na Bolívia (culpado ou inocente, condenado pela justiça ou perseguido político), o governo de Dilma Roussef garantira seu asilo na embaixada há quase 450 dias. Poderia tê-lo negado. Segundo o Artigo II  da Convenção de Caracas Sobre Asilo Diplomático, de 1954, todo Estado tem o direito de conceder asilo, mas não se acha obrigado a concedê-lo, nem a declarar por que o nega. Uma vez garantido o asilo diplomático, competia ao Estado Plurinacional da Bolívia o concedimento de salvo-conduto para que o senador saísse do país em segurança ou, pelo menos, que fosse realocado na residência diplomática, a casa do embaixador brasileiro. Aparentemente, o governo boliviano fingia resolver a questão e o governo brasileiro fingia acreditar. Enquanto isso, Molina era mantido confinado no espaço exíguo de uma sala-anexo do escritório de Eduardo Saboia, sem direito a banho de sol, exercícios ao ar livre e obrigado a permanecer sozinho nos finais de semana, quando o prédio comercial no qual a embaixada brasileira tem escritório fechava. Ele era, inevitavelmente, um homo sacer, como na definição do filósofo italiano Giorgio Agamben – uma indefinição jurídica.

O homo sacer é a vida abandonada pelo direito. É o que Walter Benjamin  denominou de pura vida nua. A particularidade do homo sacer é que ele é incluído pela exclusão e excluído de forma inclusiva. Esta figura paradoxal captura a vida humana pela exclusão ao mesmo tempo em que a inclui pelo abandono. É uma vida matável por estar fora do direito, mas por isso mesmo ela não pode ser condenada juridicamente. Está exposta à vulnerabilidade da violência por ser desprovida de qualquer direito, sendo que tal vulnerabilidade se deriva de um ato de direito que a excluiu. O homo sacer é um conceito-limite do direito romano que delimita o limiar da ordem social e da vida humana.  Era uma figura jurídico-política pela qual uma pessoa, ao ser proclamada sacer, era legalmente excluída do direito (e consequentemente da política da cidade). Tal condição de sacer impedia que ela pudesse ser legalmente morta (sacrificada), porém qualquer um poderia matá-la sem que a lei o culpasse por isso. Não é, portanto, difícil, traçar um paralelo entre tal conceito e a situação do senador Roger Molina, independentemente de questões político-ideológicas.

Para se ter uma ideia da coragem de Eduardo Saboia, basta recordarmos que o cardeal anticomunista húngaro Jozsef Mindszenty viveu quinze anos na embaixada norte-americana em Budapeste, entre 1956 e 1971. Em 1989, o ex-general panamenho Noriega não teve a mesma sorte. Refugiado na Nunciatura Apostólica para escapar das tropas norte-americanas que tinham invadido o Panamá, ele teve de se submeter a decibéis ensurdecedores de potentes alto-falantes que tocavam rock 24 horas por dia, e no fim de quinze dias acabou não suportando. O ex-presidente peruano Haya de la Torre sofreu cinco anos numa sala da embaixada da Colômbia em Lima. Julian Assange, fundador do Wikileaks, permanece na embaixada equatoriana em Londres.

Vale lembrar que até o ditador chileno Augusto Pinochet concedia salvo-condutos. Hugo Chávez, aliado de Morales, concedeu salvo-conduto a Pedro Carmona, inimigo mortal da Venezuela bolivariana. Em 1964, brasileiros asilaram-se na embaixada boliviana. Anos depois, oficiais golpistas bolivianos asilaram-se na embaixada brasileira e o governo esquerdista do general Juan José Torres deu-lhes salvo-condutos em 37 dias. Tais operações são feitas – aberta ou clandestinamente – por embaixadas em todo o mundo quase diariamente.

O senador boliviano pode muito bem ser culpado das acusações que lhe caem sobre a cabeça, mas o governo de Evo Morales está longe de ser um exemplo de democracia. “Quando meus assessores dizem que algo é ilegal ou inconstitucional, eu respondo: ‘Não mais!’. Que os advogados ajeitem as coisas depois, pois foi para isso que estudaram”, declarou mais de uma vez o chefe de Estado. No final de 2011, o governo boliviano enfrentou uma de suas piores crises ao insistir em construir uma estrada amazônica que não contava com os pré-requisitos técnicos, ambientais e sociais estabelecido pela Constituição. Após quatro anos de sucessivas tentativas de diálogo por parte do bloco social popular indígena do Movimento ao Socialismo (MAS), partido do presidente, uma marcha foi iniciada rumo à La Paz. Morales, avesso à manifestações populares ainda que dentro de seu campo político, repreendeu a marcha duramente, acusou-os de estarem aliados a uma direita golpista e afirmou que a estrada seria construída mesmo à revelia das lideranças indígenas, numa decisão absolutamente arbitrária que desagradou até aliados. Este é apenas um exemplo das atitudes controversas do presidente boliviano que este escriba, mesmo sendo de esquerda, não pode deixar de apontar.

Devemos recordar que, recentemente, o presidente Evo Morales viu-se, ele mesmo, na condição de homo sacer, quando vagou – indefinido – pelo espaço aéreo europeu sem ter permissão de onde pousar ou mesmo onde voar. Governos europeus, temendo que o presidente boliviano estivesse levando consigo Edward Snowden, atropelaram as normas internacionais e a soberania do Estado Boliviano. Parece que nem assim Morales aprendeu a flexibilizar sua visão de direito internacional.

Pode ser que jamais saibamos os verdadeiros meandros da situação do senador boliviano; pode ser, até mesmo, que o diplomata brasileiro Eduardo Saboia estivesse equivocado ao precipitar uma fuga arriscada pelas estradas bolivianas rumo ao Brasil. Pode ser, enfim, que sua ação tenha configurado uma quebra de hierarquia. O fato incontestável é que Saboia era o responsável direto por uma pura vida nua e seu chamado ético falou mais alto do que a usual prática diplomática disciplinada. Nem sempre agir em desacordo com as regras é negativo; nem sempre agir de acordo com elas é o mais justo.

***

Balanço da atual relação Brasil-Bolívia:

Nos países menos desenvolvidos da região, tipicamente a Bolívia e o Paraguai, a reação ao perigo de uma dependência econômica percebida como excessiva com relação ao Brasil se transforma em temor e resistência ao “subimperialismo brasileiro”. Carlos Mesa, ex-presidente da Bolívia, afirmou em artigo que, desde o acordo que levou à incorporação do Acre ao território brasileiro, nos tempos do Barão do Rio Branco, “a tese do subimperialismo brasileiro esteve fortemente baseada na interpretação boliviana das nossas relações com o vizinho do leste”. A preocupação com a excessiva dependência do Brasil é, até hoje, um dos principais temas para representantes da esquerda e do nacionalismo na Bolívia. Este país, a partir do desenvolvimento de suas terras baixas, especialmente de Santa Cruz de la Sierra, na segunda metade do século XX, orientou sua economia em direção ao Atlântico, fazendo do Brasil um aliado fundamental.

O governo Lula (e o de Dilma) reforçou o peso das empresas estatais e de alguns grupos nacionais privados nas políticas de inserção externa, interferindo no desenvolvimento de países do cone sul, como a Bolívia. Na região, esses dois atores são responsáveis por grande parte da expansão dos investimentos diretos brasileiros, cuja ação contou com o apoio financeiro do BNDES.

Por um lado, existe a manifestação explícita de preferências e simpatias políticas por candidatos, partidos e governos “de esquerda”; por outro, verifica-se  a promoção direta ou indireta do aumento da presença de empresas brasileiras nos países vizinhos não por associação, mas pela aquisição de empresas locais e/ou o aproveitamento de oportunidades de exploração de recursos naturais, neste caso em setores, digamos assim, “intensivos em governo”, ou seja, empresas públicas ou privadas que contam com o apoio federal, tanto político quanto de recursos financeiros. Soma-se a isto a crescente internacionalização dos bancos brasileiros, tanto privados quanto do Banco do Brasil.

Entretanto, não faltaram gestos de “generosidade” frente a situações adversas. Correta ou equivocada, assim foi interpretada, no Brasil, a reação “compreensiva” do governo Lula com a ocupação das refinarias da Petrobras na Bolívia e a renegociação, sob uma intensa cena nacionalista, dos contratos de exploração de petróleo e gás naquele país.

Infraestrutura e transportes:
• Rodovia San Ignacio de Moxos-Villa Tunari;
• Projeto Hacia el Norte – Rurrenabaque-El-Chorro
• Rodovia Tarija-Bermejo
• Ponte sobre o rio Acre.
• Ponte sobre o rio Mamoré (Bolívia)
• Ponte sobre o igarapé Rapirrã (Bolívia)

Telecomunicações:
• O Brasil está em fase de negociação de memorando de entendimento para cooperação na implantação da TV digital com os dois países.

Mineração:
• Possibilidade de formação de parceria para exploração dos chamados “recursos evaporíticos” (lítio, potássio, dentre outros) do Salar de Uyuni.

Saúde:
• Fortalecimento da atenção integral e vigilância epidemiológica em DST/HIV/Aids
•Apoio à Implementação do Banco de Leite Materno
•Mediante assistência humanitária, foram enviados à Bolívia técnicos e materiais para auxiliar no combate à dengue, bem como vacinas contra a gripe AH1N1
Epidemia de dengue na Bolívia em 2009

Educação:
• Com a Bolívia, destacam-se a assinatura de acordo sobre educação superior, em 2007, e a implementação do projeto de cooperação para fortalecimento da oferta da educação escolar indígena na Bolívia e no Brasil, iniciado em 2008.

Agricultura e Pecuária:
• O Brasil mantém ampla pauta de cooperação técnica com Bolívia e Paraguai nas áreas da agricultura e pecuária.

Energia:
• No que concerne à crise do gás, a atuação brasileira possibilitou a assinatura de novos contratos de exploração dos campos de gás operados pela Petrobras (19/10/2006) e de contrato de compra e venda das duas refinarias (25/6/07). Assegurou-se, assim, a manutenção das operações da Petrobras na Bolívia, bem como a rentabilidade de seus investimentos.
• Assinatura de ajuste complementar para implementação do Projeto Legislação dos Recursos Hídricos (2003)
• Assinatura de memorando de entendimento em Matéria Energética entre o Ministério de Minas e Energia do Brasil e o Ministério de Hidrocarbonetos e Energia da Bolívia (2007).

Desenvolvimento social:
• Assinatura de Ajustes Complementares de Apoio ao Programa Multissetorial Desnutrição Zero (2007) e de Apoio ao Desenvolvimento do Programa de Alimentação Escolar Boliviano (2008).

Bolívia no G-20 Comercial (OMC):
• Hoje o G-20 é integrado por: África do Sul, Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, China, Cuba, Egito, Equador, Filipinas, Guatemala, Índia, Indonésia, México, Nigéria, Paraguai, Paquistão, Peru, Tailândia, Tanzânia, Uruguai, Venezuela e Zimbábue.

Comunidade fronteiriça:
• Realocação – no Brasil ou em território boliviano, conforme o desejo das famílias e sempre em condições dignas – dos brasileiros que vivem atualmente na faixa de fronteira entre o Estado do Acre e a Bolívia.

Programa de Substituição Competitiva de Importações (PSCI):
• 
Como resultado do PSCI, observa-se que o Brasil tem registrado um aumento significativo do comércio com os países sul-americanos, em particular, das importações oriundas desses países. Deixando de lado o ano de crise de 2009, podemos apontar resultados excelentes entre 2002 e 2008 como a variação das exportações da Bolívia para o Brasil (622%); do Chile (536,8%); da Colômbia (664,4%); da Guiana (1034,6%); do Peru (339,1%); e do Suriname (963.400%).

Em 25 de março de 2011, o Ministro Antonio de Aguiar Patriota manteve reunião com o Ministro das Relações Exteriores da Bolívia, David Choquehuanca. Foram examinados temas das agendas bilateral, regional e multilateral. No plano bilateral, é conferida ênfase a áreas como integração fronteiriça, produção agrícola, integração energética e combate ao problema mundial das drogas. Os Chanceleres assinaram ajustes complementares ao Acordo Básico de Cooperação Técnica, Científica e Tecnológica Brasil-Bolívia em matéria de capacitação profissional e produção agropecuária. Ocorreu, ainda, a assinatura de acordo por troca de notas para a criação de Comitês de Integração na região fronteiriça. O Brasil é o principal parceiro comercial da Bolívia. Em 2010, o intercâmbio comercial atingiu US$ 3,3 bilhões, o que representou aumento de 32% em relação a 2009.

No dia 2 de março de 2013, o Ministro das Relações Exteriores, Antonio de Aguiar Patriota, reuniu-se com seu homólogo boliviano, David Choquehuanca, em Cochabamba. O Chanceler Patriota foi recebido, ainda, pelo Presidente Evo Morales. Nos encontros, foram tratados os principais temas da agenda bilateral e regional, tais como integração fronteiriça, adesão da Bolívia ao MERCOSUL e questões relacionadas à UNASUL. O Brasil destaca-se como principal parceiro comercial da Bolívia. Em 2011, o Brasil foi destino de 41,1% das exportações bolivianas. Entre 2008 e 2012, o comércio bilateral cresceu 22,8%, passando de US$ 3,99 bilhões para US$ 4,90 bilhões.

Leia mais sobre:
Juan Arías – El País – Un incidente con Bolivia daña a la diplomacia de Brasil
O Globo – Diplomata brasileiro diz ter tomado decisão de trazer senador boliviano ao Brasil
O Globo – Dilma se irrita com operação e situação de Patriota é considerada insustentável
QG – Senador mantinha diário com relato de todos os dias de asilo
O Globo – “O governo boliviano deu sinais de que não atrapalharia”, diz Saboia sobre fuga de senador
Folha de S. Paulo – Negociações com Bolívia sobre senador eram “faz de conta”, diz diplomata brasileiro
O Globo – Bolívia acusa Brasil de descumprir normas de convenção internacional
O Globo – Após saída de Patriota, Bolívia quer resolver impasse por via diplomática
O Globo – Senadores defendem ação de diplomata brasileiro na fuga de Roger Pinto
Folha de S. Paulo – Raio-X Roger Pinto Molina
Felipe Patury – Época – Evolução do caso Molina
David Fleischer – Brazil Focus – Bolivian senator flees to Brazil – Patriota resigns
O Globo – Eduardo Saboia é comparado a “Dom Quixote” por atuação em Direitos Humanos
O Globo – Patriota se despede de equipe e elogia escolha de sucessor
Itamaraty – Nota n° 296 – 25/08/2013 – Ingresso do Senador Roger Molina em território brasileiro
O Globo – “Seriedade do Brasil está sendo questionada no mundo inteiro”
O Globo – Patriota: de amigo a chanceler problemático
OEA – Convenção de Caracas sobre Asilo Diplomático (1954)
Itamaraty – Resumo Executivo Balanço de Política Externa (2003-2010)
O Globo – Bolívia tenta evitar que incidente diplomático interfira nas relações comerciais com Brasil
O Globo – Luiz Alberto Figueiredo, novo chanceler brasileiro
Rádio ONU – Entrevista com Luiz Alberto Figueiredo
Carne Ross – Independent Diplomat – Cornell University Press

Estadão – “Eu não tenho vocação para agente penitenciário”, afirma Eduardo Saboia
Dawisson Belém Lopes – Folha de S. Paulo – Itamaraty sofre processo de esvaziamento no atual governo
O Globo – Alvo de investigação no Itamaraty, Saboia recebe manifestações de solidariedade
O Globo – “Doi-Codi é tão distante da Embaixada brasileira como o céu é do inferno”, diz Dilma

Carta Capital – O mistério do asilado
Folha de S. Paulo – Afastado, diplomata que trouxe senador faz ameaça

Estadão – Patriota diz que saiu para preservar instituição
Facebook – Pró-Eduardo Saboia
Estadão – Diplomata teve coragem e agiu certo, diz Lafer
Estadão – Diplomata fez valer decisão do governo brasileiro
Estadão – Militares sabiam da fuga de senador boliviano
Clóvis Rossi – Folha de S. Paulo – O senador e os ovos de ouro
José Casado – O Globo – O governo e o chanceler perderam a bússula

Folha de S. Paulo – Relação de Patriota com Dilma vinha se deteriorando
Editorial – Estadão – A coragem de um diplomata
Dawisson Lopes – Estadão – Antonio, o breve
Miriam Leitão – O Globo – Causa Justa
Bernardo Sorj & Sergio Fausto – Revista Política Externa – Set/Out/Nov 2011 – O papel do Brasil na América do Sul: estratégias e percepções mútuas
Slavoj Zizek – Bem-vindo ao deserto do real! – Boitempo Editorial
Castro Ruiz – Homo sacer. O poder soberano e a vida nua
Castro Ruiz – (Entrevista) A exceção jurídica na biopolítica moderna
Maurice Lemoine – Le Monde Diplomatique Brasil – Outubro 2012 – Embaixadas, direito de asilo e extradições
José Antonio Quiroga T. – Le Monde Diplomatique Brasil – Maio 2012 – Marchas e contramarchas diante da arbitrariedade governamental
Renaud Lambert – Le Monde Diplomatique Brasil – Junho de 2013 – Brasil se aproveita do sonho de Bolívar
Evo Morales – Le Monde Diplomatique – Agosto 2013 – “Eu, presidente da Bolívia, sequestrado em um aeroporto europeu”
Estadão – Senador boliviano fala sobre sua fuga
Rodrigo Constantino – Veja – Os limites entre a ética e a hierarquia
O Globo – Amizade com Patriota e Saboia foi principal fator de desistência de embaixadores
O Globo – Ministro indica integrantes da comissão para analisar caso Roger Pinto
Elio Gaspari – O Globo – Diplomacia estudantil
O Globo – Editorial – Um dos piores momentos da diplomacia brasileira
O Globo – Argo Boliviano
Carlos D. Mesa Gisbert – Revista Política Externa – Set/Out/Nov 2011 – Bolívia e Brasil: os meandros do caminho

Mario Filho, o jornalista, pede cautela após a vitória do Brasil sobre a Espanha no Mario Filho, o estádio

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Não acho que o povo brasileiro está confiante como em 1950. Mas não custa nada alertar, não é mesmo? Algumas passagens dão calafrios. Ah, o trecho foi retirado do final do quinto capítulo do livro O Negro no Futebol Brasileiro, do jornalista Mario Filho. Minha edição é da editora Mauad X, de 2010. Recomendo com toda força e paixão. É um dos livros mais importantes sobre a cultura brasileira e a identidade nacional.

Era uma Nova Era que ia se abrir para o futebol brasileiro. Todos a esperavam: ela tinha data para começar. 16 de julho de 50.

Pareceu até que fora antecipada, na goleada do Brasil contra a Espanha, quando uma multidão de duzentas mil pessoas cantou, de repente, na hora exata, sem aviso prévio, sem um sinal, as “Touradas de Madri”.

Conheci uma espanhola
Natural da Catalunha
Que tocava castanhola
E pegava touro à unha

Era uma quinta-feira, 13 de julho, e comemorou-se com três dias de antecedência o título de campeão do mundo que ninguém ia tirar do Brasil. Durante toda a noite, em todos os bares, em todos os botecos da cidade, o brasileiro bebeu e cantou. Os bares e botecos cheios, gente na calçada sambando.

E cada um se lembrava de um lance. Principalmente o gol de Jair, o terceiro. Os espanhóis recuando enquanto Jair avançava porque só chutava forte com a bola parada. Jair empurrou a bola de leve, parando-a a um passo dele e encheu o pé. Ramalletes fechou os punhos, juntou os braços para receber o impacto. E os braços de Ramalletes se abriram e foram levados para trás. A bola quase furou a rede.

Era o fim da Fúria, como se chamava o escrete espanhol. Para a crônica europeia, aquela fora a maior exibição de futebol que o mundo já vira. Poucos levaram em conta o fato de que o Brasil fizera o primeiro gol aos três minutos de jogo. Que em dez minutos já estava vencendo de três. E que, desinibidos, jogando à vontade, ao som das “Touradas de Madri”, indo para o baile, os brasileiros tinham feito uma partida que não podia servir de base.

O melhor jogo do Brasil, num sentido de verdadeiro futebol, sério, compenetrado, tinha sido o contra a Iugoslávia, quando Zizinho tivera de fazer o mesmo gol duas vezes, para valer. O gol seria o da vitória. O juiz anulou o primeiro, Zizinho repetiu pouco depois o lance, como num bis de teatro, para mostrar que o gol tinha de valer. E valeu.

A vitória contra a Espanha, porém, virou a cabeça do brasileiro. Não do jogador brasileiro: do brasileiro que ficava de fora e que já se sentia campeão do mundo. Ainda mais porque o Uruguai empatara com a Espanha no finzinho do jogo, um jogo perdido, ganhara da Suécia a duras penas.

Enquanto isso o Brasil goleava a Suécia e a Espanha. Que dúvida podia haver? As fábricas de flâmulas trataram de fazer centenas de milhares de flâmulas: “Brasil, campeão do mundo”. Os gabinetes fotográficos reproduziram em milhares de cópias uma pose do escrete brasileiro com letras gravadas em preto: “Brasil, campeão do mundo”.

O Prefeito Mendes de Moraes mandou preparar o Carnaval, o maior Carnaval que já se vira no mundo. Em cima da marquise milhares de sacos de confete para serem despejados, lá de cima, logo que o juiz desse o jogo por terminado.

Preparara-se uma rampa de ferro que, uns cinco minutos antes do jogo acabar, seria colocada através do fosso para dar passagem aos jipes das sociedades carnavalescas que fariam a volta do campo. Contrataram-se bandas de clarins, baterias de Escolas de Samba.

No sábado 15 de julho, à tardinha, os jogadores do escrete brasileiro estavam despreocupados e alegres, relaxados, vendo na quadra da curva de São Januário um treino de vôlei para moças. Foi quando veio a ordem: todos ao salão nobre.

É que tinha chegado tudo quanto era candidato a vereador, a deputado, a senador, para cumprimentar os jogadores que no dia seguinte iam ser campeões do mundo. Flávio Costa podia achar errado: estava, porém, de pernas e braços amarrados, pois era também candidato a vereador. Com a vitória do Brasil a eleição dele era mais do que certa.

Como candidato não podia cercear a liberdade dos outros candidatos. E durante duas horas, de pé, os jogadores do escrete brasileiro ouviram discursos inflamados. Cada candidato queria demonstrar mais confiança no escrete. Assim os jogadores brasileiros recebiam, de cara, o tratamento de campeões do mundo.

Mal se podia respirar no salão nobre do Vasco, aquela massa incalculável de candidatos queimando carbono, sacudindo os braços, gritando. Os jogadores brasileiros cercados, aprisionados em abraços de candidatos.

– Me assine um autógrafo aqui.

Era uma flâmula: “Brasil, campeão do mundo”. Num cartão-postal colorido: “Brasil, campeão do mundo”. Numa fotografia dezoito por vinte e quatro, uma montagem de péssimo gosto, do estádio e do escrete, com letras góticas a nanquim: “Brasil, campeão do mundo”.

Deve ter passado pela cabeça de mais de um jogador brasileiro:

– E se der o azar?

Podia dar o azar, e tudo aquilo que se estava fazendo era justamente o que nenhum clube na véspera de um campeonato se atrevia a fazer: porque podia dar o azar. Porque sempre, de acordo com as estatísticas, dava o azar. Um jogo era um jogo, era um jogo, era um jogo.

E talvez mais de um jogador brasileiro se lembrasse, entre os gritos e os abraços dos candidatos, de que dois meses antes houvera um Brasil e Uruguai, em São Januário, e que o Brasil vencera só de um a zero, num gol quase espírita de Ademir Menezes.

Naquele sábado já um vespertino não aguentara em guardar o furo que na segunda-feira não seria mais furo. Nem numa extra de domingo. E esticou a manchete com vinte e quatro horas de antecedência: “Brasil, campeão do mundo”.

No domingo, às onze horas da manhã, os jogadores brasileiros estavam almoçando, todos procurando não pensar no jogo, uns contando anedota, se todos rissem relaxariam, seria uma beleza, quando tiveram de levantar-se. Eram os candidatos que voltavam. Uns que não tinham vindo na véspera e que não queriam ser passados para trás. E tome discurso. E tome abraço. E tome autógrafo.

Entrando em campo viram que os olhos humanos ainda não tinham contemplado, a maior multidão que já fora a um jogo de futebol, duzentas e vinte mil pessoas que cá de baixo pareciam esfarelar-se.

Era assustadora aquela massa humana que se comprimia no Maracanã. Dependia deles, só deles, que aquelas duzentas e vinte mil pessoas vivessem o dia mais feliz ou mais desgraçado de suas vidas. E não só aquelas duzentas e vinte mil pessoas que tinham conseguido entrar no Maracanã. Não havia um brasileiro lá fora, no Rio, em São Paulo, em Minas, no Rio Grande, na Bahia, em Pernambuco, em qualquer estado ou território do Brasil, que não estivesse ao pé de um rádio, para ver, também, com os ouvidos, o Brasil ser campeão do mundo.

Só na hora em que os dois escretes ficaram formados em campo, um de cada lado, o velhinho alegre Mr. Reader olhando o cronômetro para dar início ao jogo, é que veio o medo. Todo torcedor, por mais confiança que tenha no seu time, conhece bem esse instante de suprema humildade. Então sabe, com certeza plena, que um jogo é um jogo é um jogo. Que tudo pode acontecer num jogo. Que será o que Deus quiser.

Daí o silêncio súbito que pesou, como chumbo, sobre o Maracanã. O mistério ia desvendar-se para o bem ou para o mal.

Toda a força do futebol está nesse encontro frente a frente, um olhando nos olhos do outro, do homem com o destino. Só que o homem só vê o destino depois que ele descerra o último véu. Por isso é que o torcedor se encolhe e emudece no momento em que o destino vai principiar a desencadear-se, sem que qualquer força humana possa detê-lo.

O gigante acordou ou levantou para fazer xixi?

passeata aérea rio de janeiro

I

Podemos garantir: os historiadores terão muito trabalho. Primeiro porque o povo que tomou as avenidas faz parte de uma massa heterogênea que até ontem era imiscível; não há lideranças visíveis; os canais estão abertos e todos os setores da sociedade brasileira irão participar do jogo; o movimento não veio para explicar, mas para confundir. Uma dica a quem não está entendendo nada e precisa de um repertório introdutório: somos a geração que assistiu aos filmes Clube da LutaMatrix, V de Vingança e O Cavaleiro das Trevas. Mas comece pelo V de Vingança, muito mais urgente. Não temos rosto, usamos máscaras, nós somos todo mundo, o caos encarnado, mais Coringa que Batman. Há pouca concordância entre nós mas, naquilo em que concordamos, não iremos recuar. Vocês já perderam, portanto reduzam os danos enquanto é tempo.

II

Vão sempre noticiar que somos menos do que realmente somos, em número e em capacidade de atuação. Nós não estaremos nas ruas para mudá-los, mas para mudarmos. Vocês não vão mudar e é por isso que muitos de vocês não servem mais. Do asfalto esburacado das grandes avenidas brasileiras nascerá uma juventude inquieta que desconfiará dos discursos pré-fabricados, das fórmulas que não funcionaram, dos esquemas que são apenas bonitos, do entretenimento que tenta nos anular e do plano de vida que nós não queremos ter.

III

Nós falaremos sério, rindo. Nós assistiremos seu canal como deboche. Nós leremos sua coluna para sabermos o que não queremos ser. Nós não vamos disputar espaço: aqui, cada um tem o seu papel. Nós confundiremos analistas enquanto pudermos. Nós devolveremos o trauma. Nós somos muito bem informados e está cada dia mais difícil nos enganar e nos confundir. Quando começou o milênio, vocês pensaram que tinham nos derrubado nos mantendo em casa, mas rapidamente descobrimos como nos achar. Queremos a rua de volta!

III

Menos Prozac, mais voz!

IV

Direitos humanos é uma luta diária. Hoje é o morador da favela. Logo, logo é qualquer um, por motivo nenhum. Indigne-se em defesa do próximo.

V

A distância entre democracia e estado de exceção é, infelizmente, pequena. Nós criaremos um estado de emergência nas ruas que corresponda à nossa emergência interior.

VI

Menos câmeras de vigilância e mais cinema!

VII

A luta não é contra o sistema. Lutamos para nos inserirmos num sistema que nos excluiu. Não queremos o nosso dinheiro subsidiando empresas de transporte. Nós queremos o fim do lucro criminoso e ultrajante! Vinte centavos foi a diferença entre ir e ficar. Nós queremos ir!

VIII

A biopolítica nunca foi tão importante. Olhe-se nu no espelho: como as coisas estão indo, esse corpo é cada dia menos seu.

IX

Desconfie da mídia se ela mostra apenas um lado. Desconfie mais ainda se ela subitamente quer mostrar os dois. No momento em que ela estiver do seu lado, descarte-a: ela te trairá mais cedo ou mais tarde.

X

Nós sabemos que o Brasil não é tão ruim quanto dizem os que querem tomar o poder à força, nem tão bom quanto dizem os que não querem largar a cadeira oficial. Nós não queremos mais consumo e mais crédito! Nós não queremos mais índices e pesquisas mentirosas! Nós abandonaremos a nossa revolução se vocês revolucionarem a saúde e a educação brasileiras. E não falo apenas de destinar mais dinheiro: nós queremos comprometimento contínuo na mudança! Nós queremos projetos de longo prazo postos em prática e os de curto prazo começando amanhã!

XI

Um professor vale mais que o Neymar. Um médico vale mais que o Eike Batista. FIFA, nós gostamos de futebol, sim, mas gostamos ainda mais de nosso povo. Vocês analisaram mal, muito mal, quando pensaram que iriam instaurar suas leis, seus esquemas, suas remoções hediondas e nós ficaríamos calados. Aguentem a ressaca!

XII

O movimento estudantil organizado irá se iludir, se deprimir, se dividir e, quarenta anos depois, seus líderes escreverão livros de memórias com os dizeres: “nós erramos”? Não, não caiam no erro. Não façam discussões intermináveis, não desperdicem força e não tenham a pretensão de liderar. Vocês já venceram! Vocês começaram tudo isso e continuarão vencendo se continuarmos juntos! Não debatam com termos antigos, criem uma nova linguagem, ajam e deixem agir! A História saberá que foram vocês que acenderam a centelha. Deixem de lado as brigas internas e aproveitem! Não permitam que a classe média coxinha lidere, mas levem em consideração presença dela.

XIII

O governo de São Paulo queria saber com quem negociar. O governo do Rio de Janeiro quer saber com quem negociar. Não há liderança e, se houver, ela não representa ninguém senão a si mesma. Deixem eles se desgastarem eleitoralmente, sem saber por que, sem saber onde e como, e eles vão, talvez, começar a entender o que nós sentimos dia após dia. As balas vêm de todos os lados? Ótimo. É assim que vocês nos tratam.

XIV

Sabem o que é unânime? O Poderoso Chefão é o maior filme de todos os tempos. Família Soprano, o maior programa de televisão da História. E sabem por quê? Porque para onde olhamos há atividade mafiosa. Nós somos o Michael Corleone sentado numa festa de família odiando fazer parte de uma estirpe mafiosa, esperando a hora em que seremos obrigados a nos corromper. E, quando nos corrompermos, passaremos a vida frustrados por descobrirmos pouco a pouco que não é apenas a máfia ilegal e criminalmente punível que atua em nossas vidas, mas as estruturas mafiosas que permeiam todos os aspectos legais da vida; uma atividade contínua executada por gente de colarinho branco e carros oficiais, fazendo esquemas pelas nossas costas. Nós não queremos mais ser apenas espectadores da barbárie burocrática! Nós não queremos mais trocar confidências de esquemas! Nós não queremos uma vida assim!

XV

Ser contra a corrupção, todos somos. Esqueçam a ideia de uma revolução moral. Precisamos de uma revolução cognitiva que seja árdua, permanente, autorreflexiva e auto-crítica.

XVI

Não hostilize os partidos políticos e os movimentos sociais. Desculpe o choque de verdade, mas isso é tipicamente fascista. Respeite-os! Eles já lutavam por ideais antes de você nascer, lutavam pelas melhorias que hoje você luta até semana passada, apanhando de polícia com seus parcos companheiros e, quando você estiver casado, com filhos e assistindo ao Fantástico, eles continuarão lutando. Seja apartidário – é um direito seu não se identificar com partido nenhum, assim como não me identifico completamente – mas não seja anti-partidário. Cuidado com o discurso do “Sem nenhum partido, pela nação!”, pois isso se parece muito com “Pela nação sem nenhum partido!” Ditadura, em outras palavras. E saiba, com toda a responsabilidade que disso decorre, que se você não está na esquerda, está na direita. Centro, só o da cidade, que é onde estaremos enquanto não atingirmos os nossos objetivos. Posicione-se!

XVII

Não seja ufanista. O Brasil não é lindo. Não há um futuro glorioso nos esperando. Um país é fruto de uma luta diária, paciente, perene, com pequenas revoluções, pequenos atos, mudanças constantes, autorreflexão contínua. O gigante acordou como acordou outras vezes, mas a História mostra que sempre teimamos em voltar a dormir. Não durma! Esteja para sempre atento!

XVIII

Quebrar e depredar é uma atitude válida quando é política, direcionada, com manifesto e não quebra-quebra aleatório. Você acha que o banco te explora quando pega o extrato? Quebre o banco e piche: “Parem de me explorar, safados!”. Acha que o Cabral merece ter a casa quebrada para sentir a fúria? Quebre e deixe um recado. Pichar muros com dizeres políticos é política, é revolta legítima. Mas não destrua patrimônio particular de trabalhadores que são tão explorados quanto todos nós. Ele está do seu lado. Ele é você! Direcione sua fúria, se a fúria é sua linguagem. Mas durma com essa: trabalhadores vão limpar toda a sua fúria amanhã pela manhã. E custa caro. E eles vão dizer que custa mais do que custa de fato, como sempre. Ponha esse dado na balança e peça ao menos desculpas.

XIX

Não busque respostas. Faça novas perguntas.  Você não é um idiota que viu a internet crescer. Você viu o maior ataque terrorista da História, genocídios na África, duas guerras americanas hediondas, os maiores países do mundo em crise, Oriente se insurgir contra ditaduras e o Brasil receber injeções diárias de desânimo. A História de nosso país é uma história de levantes, revoltas, insurgências (e, infelizmente, de golpes; cuidado!). Abrace o seu tempo. A História é agora.

XX

Não sei o que significa o gigante ter acordado porque não sei que gigante é esse. Se é um gigante autoritário, excludente, homofóbico, machista, racista e moralista, melhor continuarmos dormindo. Mas se é para acordar um gigante nunca visto e que pretende inspirar a mudança, então tire o seu pijama, escove os dentes e parta para a luta comigo!

Londres precisa ser notícia

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Meus amigos esquerdistas que me perdoem, mas Cecília Malan é fundamental. Esqueçam o Plano Brady, o Plano Real e o fim da inflação hedionda: o magnum opus de Pedro Malan é Cecília. Ela é uma das quatro ou cinco mulheres públicas do mundo que me fariam caminhar como um pato atordoado em direção à direita. Por sorte, Manuela D’Ávila é comunista.

Londres precisa ser notícia todos os dias. Se foi Maggie Thatcher quem morreu, tanto melhor – menos uma neoliberal no mundo e, de quebra, Cecília aparece. David Beckham se aposentou? Ótimo, pois é Cecília quem nos trará a notícia. Posso mesmo afirmar sem nenhuma vergonha que ela amainou meu luto ao cobrir a morte do Eric Hobsbawm, nosso mestre, pai e guia. Mas ele há de me perdoar com um um brejeiro “O que é isso, companheiro?”.

A cartilha de homem de esquerda já havia feito com que eu não assistisse mais à Globo, porque a Globo, como nós sabemos, é um braço do imperialismo ianque no complô internacional dos Illuminati pela instauração da Nova Ordem Mundial. Mas não teve jeito. Agora me vejo esperando ansioso a entrada de Cecília nos telejornais globais para que suas delicadas bochechas possam iluminar de azul e amarelo meu coração vermelho. Olho para Cecília e tenho vontade não apenas de privatizar a Petrobras, mas entregá-la em mãos ao principal investidor da Exxon. Por Cecília eu só não privatizaria o Colégio Pedro II, porque aí já é demais. (Talvez abrisse mão da Tijuca e do Humaitá – unidades assim muito pequeno-burguesas.) Para vocês entenderem bem: por ela eu seria amigo pessoal de Ali Kamel e William Waack na maior. E podem me chamar de traidor à vontade – na minha dialética, Cecília é síntese.

Cecília deve ter deixado corações estraçalhados em todos os continentes em que morou na infância e juventude. Garotos e rapazes (hoje homens) que, mesmo depois de tanto tempo, devem ouvir o português numa música do Tom Jobim e pensar: Cecília sabe falar essa língua, e como tenho saudades dela! Felizmente, mesmo depois de anos no exterior, Cecília não perdeu o sotaque chiado e arrastado dos cariocas. Quando fala, Cecília é casa, embora ninguém, ninguém fale o inglês que ela fala – irritantemente perfeito (creio que Cecília também domina o francês, o que para uma mulher como ela é uma tremenda covardia com as outras).

Dizem que sua mãe, Catarina, deixou indócil toda uma geração de pretendentes e ex-namorados no Rio de Janeiro ao se casar com Pedro, seu pai, o que mostra o fascínio causado pela beleza da estirpe. Não falta nada em Cecília em seus um metro e sessenta e quatro (ela confessou sua altura numa reportagem, antes que Zé Serra abra um dossiê sobre mim). Nem covinha no queixo. Covinha no queixo! Não é um acinte? É. Quando ela surge na tevê, devo fazer a cara que Sheldon Cooper, da série The Big Bang Theory, faz quando vê um coala.

Sua timidez, notável, tem a graça das crônicas de Rubem Braga e tenho certeza que, mesmo aos trinta anos, Cecília ainda usa pijamas de algodão da Looney Tunes e meias coloridas da Disney para dormir. No frio de Londres, pantufas de urso devem ocorrer às vezes, podemos inferir com segurança. Alguém duvida de que o prato preferido de Cecília seja brigadeiro de panela? Ora, mesmo longe de ser gorda, Cecília deve se esforçar para manter bochechas tão delicadamente esféricas.

Para minha vida poder seguir o rumo normal, Cecília nunca poderá parar na bancada do Jornal Nacional, ou rapidamente estarei filiado ao partido tucano, andando com o broche da juventude peessedebista e cooptando jovens ambiciosos. E não seria impossível, pois, perto de Cecília, Patrícia Poeta é uma modelo das fotografias de Diane Arbus – além de Cecília ser muito mais esperta, naturalmente simpática e ter bochechas genuínas (estou uma flor de obsessão com as bochechas!) mesmo debaixo da maquiagem protocolar das repórteres.

Sei que não sou o único a pensar tudo isso dela. Portanto, conclamo um grito em uníssono para a manutenção eterna de Cecília nos telejornais globais. Apaixonados por Cecília do mundo: uni-vos!

(O Ministério da Fazenda adverte: Cecília Malan causa dependência e transforma cronistas esquerdistas em Arnaldos Jabores.)